O Policiamento Comunitário ou de Proximidade é um tipo de policiamento que utiliza estratégias de aproximação, ação de presença, permanência, envolvimento e comprometimento com o local de trabalho e com as comunidades na preservação da ordem pública, da vida e do patrimônio das pessoas. A Confiança Mútua é o elo entre cidadão e policial, entre a comunidade e a força policial, entre a população e o Estado. O Comprometimento é a energia.

Esta estratégia de policiamento visa garantir o direito da população à segurança pública, mas, tendo em vista que confiança é essencial, o sucesso depende de policiais preparados, do apoio da sociedade organizada, das comunidades, de leis respeitadas e da interação entre poderes, instituições e órgãos envolvidos num Sistema de Justiça Criminal que exige finalidade pública, observância da supremacia do interesse público, valor à vida das pessoas, comprometimento, objetivo, coatividade, instrumentos de justiça ágeis, execução penal responsável e forças policiais bem formadas, respeitadas, valorizadas, especializadas, atuando no ciclo completo e capacitadas em efetivos para exercer função essencial à justiça na preservação da ordem pública e da incolumidade das pessoas e do patrimônio.

quarta-feira, 29 de maio de 2013

UPP RECUPERA AUTOESTIMA DA TIJUCA


Após UPPs, Tijuca recupera autoestima e volta a se valorizar. Às vésperas de completar 254 anos, bairro vive entrada de novos lançamentos imobiliários, lojas de grifes estrangeiras e até seu primeiro hotel internacional


FERNANDA PONTES
WALESKA BORGES 
O GLOBO
Atualizado:29/05/13 - 5h00

A moradora Sonia Fragozo, que se diz tijucana de carteirinha, retornou ao bairro, após um exílio de dez anos; na foto, ela está à frente da Igreja São Francisco Xavier Marcelo Piu / O Globo


RIO — Quando se viu com o travesseiro nas mãos, no meio da madrugada, procurando um lugar seguro para dormir no corredor de sua própria casa, a arquiteta Sonia Fragozo tomou uma decisão até então impensável: se mudar da Tijuca, bairro onde nasceu, para a Zona Sul. Era o ano 2000, quando, da janela de seu apartamento na esquina da Rua Barão de Itapagipe com Professor Gabizo, acompanhava com apreensão as rajadas de metralhadoras nas comunidades vizinhas. Em 2010, quando as favelas da região começaram a ser pacificadas, Sonia resolveu voltar.

Ao trocar a Tijuca por Laranjeiras, a arquiteta sentiu logo a diferença. Seu novo apartamento ficava longe do metrô, não havia oferta de transporte público e, como a família e amigos ainda moravam na Tijuca, ela continuou frequentando o bairro:

— Sou tijucana de carteirinha, estudei no Colégio Santa Teresa, frequentei os cinemas da Praça Saens Peña. Hoje eu encontro as pessoas na rua e ainda paro para tomar um expresso no Café Palheta.

De volta ao passado

Sonia retrata um movimento que o mercado imobiliário e o comércio já perceberam: às vésperas de completar 254 anos, a Tijuca está voltando aos bons e velhos tempos, com a entrada de novos lançamentos imobiliários, lojas de grifes estrangeiras e até seu primeiro hotel internacional — o que fez subir o valor do metro quadrado de R$ 5.022, em 2010, para R$ 8.642, em 2012, o equivalente a 72%.

Para João Paulo Matos, presidente da Ademi, o bairro passou 20 anos “adormecido”, devido ao processo de favelização, que acabou sendo maior que no restante da cidade por questões geográficas.

— Após a entrada das UPPs, seus ex-moradores estão voltando. São pessoas conservadoras, que saíram com medo da violência e querem voltar para perto da família — analisa ele, que contabilizou o lançamento de 1.077 unidades residenciais e comerciais na região em 2012, contra 523 em 2010.

De olho nesse mercado, Rogério Zylbersztajn, vice-presidente da RJZ Cyrela, voltou a investir na região após 11 anos. Ele aposta que o bairro vive o resultado de um “mercado reprimido pela violência”:

— Nós começamos na Tijuca, mas os imóveis deixaram de ter liquidez. Agora vivemos o movimento oposto. Vendemos 200 escritórios num prédio comercial em apenas uma tarde. Hoje o metro quadrado vale um pouco menos que o de Botafogo, que custa R$ 10 mil.

Barra, só para o fim de semana

A engenheira Julieta Santos, por exemplo, comprou uma cobertura na Tijuca por mais de R$ 1 milhão. Ela diz que poderia morar na Zona Sul ou na Barra, mas gosta da Tijuca porque tem tudo “pertinho”.

Já a professora aposentada Lúcia Viola, de 66 anos, está no bairro há quatro décadas. Mesmo depois de ter comprado um apartamento na Barra, apenas para passar o fim de semana e emprestar aos amigos, ela não se mudou da Tijuca, onde vive numa espaçosa cobertura. O farto comércio, a facilidade de transporte, hospitais, restaurantes e igrejas são alguns dos motivos apontados para permanecer no lugar.

— Faço tudo na Tijuca. Costumo brincar dizendo que, se sair daqui, vou precisar de passaporte. O tijucano é muito bairrista. Eu me orgulho de morar aqui — diz Lúcia, que também é síndica do prédio onde mora.

Esse tijucano com poder aquisitivo, e que não está disposto a cruzar o túnel toda vez que quiser fazer compras em lojas de marcas, é um dos focos do Shopping Tijuca, que acaba de passar por uma “remodelação”. Calvin Klein, Lacoste e Adidas e o café Starbucks são algumas de suas aquisições estrangeiras, além das grifes nacionais Le Lis Blanc e Reserva.

A mudança também já pode ser sentida nas ruas do bairro, que ganhará seu primeiro hotel de bandeira internacional. O Best Western, voltado para negócios, está presente em 83 países. Ficará na Rua Ibituruna, em frente à Universidade Veiga de Almeida. E, em 2014, abrirá na Rua Uruguai uma nova estação do metrô, por onde passarão 30 mil pessoas por dia.

A Granado, um dos ícones dos áureos tempos, reabriu mês passado, após dez anos de exílio, no mesmo prédio histórico onde funcionou a primeira filial da Granado, a partir de 1917.

A história da Tijuca começa com a venda de chácaras em leilão para descendentes de nobres portugueses e grandes comerciantes. Não à toa, algumas das instituições mais emblemáticas do Rio foram construídas ali, como o Instituto de Educação e o Colégio Militar.

— Seu auge foi nos anos 50 e 60, quando foi consagrada como região que oferecia qualidade de vida e vizinhança nobre. Daí o ‘orgulho tijucano’ — explica o historiador Nireu Cavalcanti.

O colecionador Fernando França, que trabalha num antiquário na Praça Saens Peña, conta que vendeu sua casa na Tijuca por causa da violência. Hoje, reconhece que o bairro melhorou.

— Infelizmente, vendi minha casa antes da UPP e acabei perdendo dinheiro. Hoje não sei se teria dinheiro para comprá-la de volta.

Era na Praça Saens Peña, coração da Tijuca, que ficava o maior número de cinemas da cidade (11), incluindo a maior sala de todas, a do Olinda. Com o passar dos anos, muitos cinemas foram transformados em igrejas evangélicas. Mas o lugar continua sendo um ponto de referência.

Padaria de bambas

Os idosos aproveitam a tranquilidade da praça para fazer ginástica nos aparelhos ou para jogar cartas. O clima, porém, nem sempre foi assim.

— Antes da UPP, já tive que sair correndo num domingo por causa de um tiroteio no morro. Hoje, meus amigos de outros bairros ficam aqui conversando sem medo — conta o aposentado Alcides da Costa, de 83 anos.

Se no asfalto a vida melhorou, quem mora na favela sentiu ainda mais a diferença. Marcelo da Paz, nascido e criado no Salgueiro, transformou a antiga birosca do pai em bar, mercearia e padaria. O lugar, inaugurado em janeiro, virou também um ponto de encontro entre o morro e o asfalto. Turistas da China, do Japão e dos Estados Unidos já estiveram ali. De lá, partem para trilhas em comunidades pacificadas.

— Nada disso seria possível se não fosse a pacificação. Não temos mais a ostentação de armas — explica Marcelo, que faz uma constatação: — Hoje o Salgueiro é um pré-sal inexplorado.

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