O Policiamento Comunitário ou de Proximidade é um tipo de policiamento que utiliza estratégias de aproximação, ação de presença, permanência, envolvimento e comprometimento com o local de trabalho e com as comunidades na preservação da ordem pública, da vida e do patrimônio das pessoas. A Confiança Mútua é o elo entre cidadão e policial, entre a comunidade e a força policial, entre a população e o Estado. O Comprometimento é a energia.

Esta estratégia de policiamento visa garantir o direito da população à segurança pública, mas, tendo em vista que confiança é essencial, o sucesso depende de policiais preparados, do apoio da sociedade organizada, das comunidades, de leis respeitadas e da interação entre poderes, instituições e órgãos envolvidos num Sistema de Justiça Criminal que exige finalidade pública, observância da supremacia do interesse público, valor à vida das pessoas, comprometimento, objetivo, coatividade, instrumentos de justiça ágeis, execução penal responsável e forças policiais bem formadas, respeitadas, valorizadas, especializadas, atuando no ciclo completo e capacitadas em efetivos para exercer função essencial à justiça na preservação da ordem pública e da incolumidade das pessoas e do patrimônio.

sábado, 9 de julho de 2016

BRIGADA LANÇA BASES MÓVEIS COMUNITÁRIAS



Brigada Militar lança nova ofensiva contra a criminalidade na Região Metropolitana. Projeto de Bases Móveis Comunitárias visa a ampliar o policiamento em áreas conflagradas de Porto Alegre, Canoas e Novo Hamburgo

Por: José Luís Costa
ZERO HORA 07/07/2016 - 11h39min



A Brigada Militar apresentou na manhã desta quinta-feira um nova ofensiva para tentar combater a criminalidade na Região Metropolitana. Batizada de Bases Móveis Comunitárias, a iniciativa consiste em ampliar o policiamento com a presença de ônibus em áreas conflagradas de Porto Alegre, Canoas e Novo Hamburgo para aproximar o policiamento da população. São quatro bases com 10 policiais em cada uma delas, que terão à disposição uma viatura, podendo ser agregada mais uma motocicleta ou bicicleta.

Na Capital, serão duas bases, nos bairros Rubem Berta e Santa Tereza, regiões que figuram no topo do ranking das regiões mais violentas da cidade. O Rubem Berta registrou cerca de cem homicídios em 2015, conforme o subcomandante-geral da BM, coronel Andreis Silvio Dal Lago, e o Santa Tereza, em torno de 60 assassinatos.


A presença mais acentuada da BM no Santa Tereza visa a diminuir focos de tensão por conta da ação de traficantes. Após um jovem ser ferido em confronto com PMs, dois ônibus e um lotação foram incendiados em setembro passado. Dias depois, disputas entre gangues resultou na queima de outro ônibus ao lado do posto de saúde da Vila Cruzeiro. A unidade precisou ser fechada por falta de segurança. Em Canoas, a base móvel estará no bairro Mathias Velho, e, em Novo Hamburgo, no bairro Santo Afonso.


Adquiridos nos últimos dois anos, os ônibus funcionarão como referência para atendimento e orientação à comunidade. São equipados com computadores que permitem aos PMs registrar ocorrências de delitos sem gravidade e acesso ao sistem de informação Consultas Integradas, que permite pesquisar dados sobre pessoas, veículos e armas. Também há câmeras acopladas aos veículos — ainda sem geração de sinal — cujas imagens serão captadas por telas dentro do próprio ônibus.

O projeto das Bases Móveis Comunitárias lembra, de forma mais tímida, a principal bandeira do governo Tarso Genro (2011 a 2014) na segurança pública, os Territórios da Paz, lançados há cinco anos, no próprio Santa Tereza e Rubem Berta, além dos bairros Restinga Lomba do Pinheiro. A iniciativa sucumbiu porque contava com recursos federais que foram suspensos.

Projeto foi lançado próximo a local de venda de drogas

O lançamento das Bases Móveis Comunitárias ocorreu no Santa Tereza, no cruzamento das ruas Manoel Lobato e Sepé Tiaraju, uma conhecida cracolândia, ponto de reunião diária de usuários de drogas e prostitutas. No local, um ônibus da BM ficará estacionado, durante um turno, por até seis horas.


— Aqui era um ponto de tráfico e de prostituição — enfatizou o tenente-coronel Kleber Goulart, comandante do 1º Batalhão de Polícia Militar, responsável pelo patrulhamento da região.

Os horários e os locais para montar a base móvel serão de acordo com os índices de criminalidade, explicou o subcomandante da BM. Ele lembrou que a iniciativa foi viabilizada a partir de liberação de mais recursos para a segurança pública, como pagamento de horas extras, anunciado na semana passada.

Além da Sepé Tiaraju, o ônibus destinado ao Santa Tereza deve se movimentar até a Avenida Orfanotrófio, à noite, em horários próximos a saída de estudantes do Centro Universitário Ritter dos Reis. Aos finais de semana, a base deverá se deslocar para o Belvedere Ruy Ramos, no alto do Morro Santa Tereza.

Presente ao evento, o governador José Ivo Sartori, destacou a importância da iniciativa:

— Esse é um trabalho diferenciado. As necessidades são muitas, e com a compreensão de todos, faremos o policiamento comunitário preventivo, oferecendo mais segurança.

Instantes depois de falar a jornalistas, Sartori foi abordado por um morador. O microempresário Márcio Dias, 43 anos, reclamou da insegurança, da presença de usuários de crack e da prostituição no bairro:

— A gente tem um apartamento e estou tentando negociar para me mudar, só que é o dia inteiro prostituição na avenida. Tenho parentes que moram aqui, mas têm medo de ir para a parada do ônibus porque podem ser assaltadas ou taxadas de craqueiro ou outras coisas.

Sartori respondeu:

— É por isso que estamos aqui com a BM, para ajudar. Pouco depois, surgiu a primeira ocorrência em um beco nas imediações da Avenida Moab Caldas, onde um homem armado assustava moradores. PMs foram ao local e capturaram em flagrante um jovem de 19 anos que portava uma espingarda calibre 12. Segundo os policiais, ele tem antecedentes por tráfico e porte ilegal de arma.

O PARADOXO DE DALLAS



ZERO HORA 09 de julho de 2016 | N° 18577


OLHAR GLOBAL | Luiz Antônio Araujo


Alguns dos mais notórios responsáveis por mortes de inocentes da história dos Estados Unidos nasceram ou passaram parte da vida em Dallas: Albert Herndon, Sam Bass, Bonnie e Clyde, Lee Harvey Oswald, George W. Bush. Neste como em outros casos, a fama é injusta. Diferentemente de outras localidades americanas, os índices de criminalidade caíram de forma notável nos últimos anos em Dallas.

Com 1,2 milhão de habitantes conforme o censo de 2010, a cidade é a nona maior do país e a terceira maior do Texas, depois de Houston, a capital, e San Antonio. No ano passado, por exemplo, a taxa de crime por 100 mil habitantes na cidade, um dos principais indicadores de segurança pública, teve uma queda de 4,5% em relação a 2014. Nesse mesmo período, essa taxa caiu em 20 das 30 maiores cidades americanas. Considerando-se dados de 22 dessas 30 localidades, o percentual ficou estável.

No caso dos crimes violentos, Dallas teve um aumento nesse intervalo: 4,8%. Nas 30 maiores cidades, o incremento foi menor: 3,1%.

Ainda assim, os patamares de 2014 estão entre os mais baixos da história na cidade. O número de homicídios em 2014, por exemplo, foi de 116 – a cifra mais baixa desde 1930 e praticamente a metade da registrada em 2004.

O blog The Watch, do jornal The Washington Post, especializado em segurança, associou no ano passado esses números à política de policiamento orientado para a comunidade do chefe David Brown.

Em um artigo publicado em 14 de agosto de 2014, depois da morte do jovem negro Michael Brown em Ferguson, Estado de Missouri, Brown recordou o dia em que passara pela entrevista de admissão como policial, em 1981, e fora questionado sobre as razões que o levavam a buscar uma vaga de agente. Sua resposta foi:

– Quero ajudar as pessoas, senhor. Quero servir minha comunidade. Quero fazer diferença.

Brown é negro.

sexta-feira, 22 de abril de 2016

VALORES SÃO CONVICÇÕES ASSUMIDAS






DEPARTAMENTO POLICIAL DE NOVA IORQUE


Nossos Padrões de Excelência


Valores são as convicções assumidas pelo Departamento Policial e seu pessoal. Eles guiam as ações individuais dos empregados e as decisões políticas feitas pela administração. Como tal, os valores proporcionam para o Departamento uma sensação do por que existe e o que quer alcançar.

Para os empregados, valores indicam como eles vêem o mundo, os seus componentes e outros com quem eles têm contato. Aos executivos da das organizações, valores são as forças motrizes do comportamento. Pessoas não fazem coisas por causa da ameaça de punição disciplinar, mas porque elas acreditam no que estão fazendo.
 

No policiamento, três são os tipos de valores particularmente importantes.


Valores organizacionais - são a declaração oficial do Departamento de como o policiamento será feito e o que é mais importante. Aqueles valores indicados como os mais sérios da organização. Valores da organização vinculados à comunidade para a qual presta serviços. O método para lidar com as situações que encontra diariamente. 

* O encontro da razão de existir da corporação com o dever de servir e proteger a comunidade.


Valores do servidor - indicam como os policiais uniformizados e civis vêem o mundo no qual eles trabalham. Como os valores organizacionais, pelas suas percepções de empregados, indicam o que acreditam, o que é importante, e como tratam as pessoas com quem entram em contato. 

* A valorização da pessoa e da família do policial, o cuidado com a saúde mental e o respeito aos direitos humanos e funcionais do policial.

Valores da comunidade
- indicam como os residentes da cidade esperam do Departamento Policial. Estes valores partem da expectativa do público para com o Departamento Policial. Valores de comunidade também indicam o tipo de relação que acreditam que o Departamento deve ter com residentes dos bairros da cidade.

* A interação e o comprometimento com o local de trabalho e com a segurança das pessoas que moram, trabalham e vivem ali. 

O Departamento Policial da Cidade de Nova Iorque sempre teve seus valores organizacionais. Com o passar do tempo, estes valores foram cultuados, mas raramente foram postos em forma escrita. O Departamento Policial da Cidade de Nova Iorque que é uma grande organização se torna difícil obter um consenso de valor. Mas com a mudança do Departamento para o policiamento comunitário, estes valores do Departamento devem ser declarados publicamente e geralmente têm que emparelhar com as expectativas da comunidade. Os valores de todos os empregados devem, em troca, emparelhar com os valores do Departamento e assim todo o potencial do policiamento comunitário será alcançado.

* A unidade policial deve atender a expectativa e a confiança da população.

Valores atuais do Departamento e Comunidade 

Muita discussão surge entre a polícia e os seus componentes vêm de valores contraditórios e de expectativas. O que a comunidade espera da polícia e que polícia espera deles entra freqüentemente em conflito. O assunto é ainda mais complicado quando se verifica a diferença entre os valores declarados e os valores atuais. 

* Sem confiança interna e externa fortalecida por postura e resultados, não existe policiamento preventivo...

 A comunidade espera estes resultados de sua polícia:

· Honestidade e integridade

· Respeito

· Imparcialidade

· Justiça

· Profissionalismo.

· Sensibilidade

· Obediência à Lei

· Dignidade de vida

· Responsabilidade do governo para com as pessoas

· Tratamento igual dentro da lei

· Responsabilidade para as necessidades da comunidade

· Execução neutra de lei e respeito às diversas culturas e estilo de vida

· Comunidade participando da execução e tomada de decisões

· Apoio aos direitos humanos e liberdades civis

· Um meio ambiente seguro e protegido

· Seleção boa, treinamento e equipamentos.





Fonte:
Policing New York City in the 1990s
The Strategy for Community Policing
Lee P. Brown Police Commissioner
January, 1991

quinta-feira, 21 de abril de 2016

QUANTOS POLICIAIS NECESSITAMOS?



Em 1990, sob a chefia do Comissário Lee P. Brown, a Polícia de Nova Iorque estabeleceu um plano para se transformar numa organização moderna e voltado aos bairros da cidade. Uma das primeiras medidas foi fazer um diagnóstico da situação que indicasse quantos policiais seriam necessários para policiar a cidade. Para produzir um documento de qualidade foram contratados consultores policiais custeados pela Fundação Policial local. O objetivo do trabalho era refletir prioridades como manter "a cidade sem medo" e inibir o crime e as desordens através da filosofia do policiamento aproximado, bairro por bairro.

1. Quantos policiais vamos precisar para manter a presença e a proximidade em todos os bairros da cidade?

2. Como podemos melhorar a função de patrulha?

3. Como uniremos a patrulha motorizada de resposta com o policiamento comunitário?

4. Que tipo de apoio tecnológico requer a prevenção de delitos?


5. Como podemos melhorar a comunicação interna e o feedback na corporação?


6. Que novas estratégias podem ser implementadas?

7. Como ativar mais a Emergência 911 para as demandas e despachos de viatura sem prejudicar a permanência e a responsabilidade territorial do policiamento comunitário?

8. Como podemos melhorar a imagem da corporação, a motivação pessoal e o orgulho dos policiais?


9. Como podemos melhorar a participação dos cidadãos e a interação com as comunidades?

10. Como reorganizar a estrutura e as estratégias de policiamento para garantir a ordem, a segurança e a tranquilidade?






"O Departamento Policial da Cidade de Nova Iorque existe para proteger a vida e a propriedade dentro da lei, manter a ordem pública, reduzir o crime e o medo de crime nos bairros, com grande respeito à dignidade humana e de acordo com os padrões mais altos de habilidade profissional, integridade e responsabilidade" 



FONTE:
Policing New York City in the 1990s
The Strategy for Community Policing
Lee P. Brown Police Commissioner
January, 1991

INVISIBILIDADE DO POLICIAMENTO TEM CAUSA E SOLUÇÕES



JORGE BENGOCHEA

A Brigada Militar vem enfrentando uma grave crise institucional de confiança junto à população gaúcha, em especial em Porto Alegre, onde se intensificam as reclamações pela ausência de policiais ostensivos nas ruas. A população quer se sentir segura e por isto a eficiência da polícia ostensiva preventiva se mede pela redução de delitos (indicador qualitativo) e não na prisão de bandidos ou na apreensão de armas e drogas (indicadores quantitativos). 

Na ativa estudei, escrevi e ensinei estratégias de policiamento comunitário, aprendi sobre erros que fazem sumir o policiamento das ruas e apliquei estratagemas para dar visibilidade e eficiência ao policiamento, mesmo com pouco efetivo. Por isto, tenho conhecimento, experiência e prática para apontar o erro e propor as seguintes medidas na área policial neste momento de crise...

O GRANDE EQUÍVOCO é priorizar a contenção dos delitos em detrimento da prevenção dos delitos, razão de existir das Brigada Militar e das demais Polícias Militares do Brasil. Assim, centralizaram a emergência e dotaram as OPM de muitas viaturas para o patrulhamento motorizado voltado ao atendimento de ocorrências, esquecendo dos efetivos, do potencial humano, da responsabilidade territorial, das relações interpessoais e da proximidade com as comunidades.

As medidas administrativas propostas são: 

1. Resgatar os policiais da ativa desviados de finalidade que estão a disposição dos presídios, dos deputados, da força nacional, etc...

2. Convocar voluntários da reserva para área administrava e de suporte às OPM nas bases operacionais. Além de tirar os aposentados do "bico", vai valorizar o potencial e o conhecimento deles na área policial, dando suporte e segurança.

3. Elaborar um plano operacional com objetivos e metas qualitativas a serem atingidas pelos comandos em todos os níveis.

As medidas operacionais propostas são:

1) Planejar a implementação de postos policiais dinâmicos, permanentes e com responsabilidade territorial, fixando as viaturas de patrulhamento e designado comandos próximos e conhecidos da população local, com metas qualitativas a serem atingidas;
2) Priorizar a prevenção dos delitos com controle das viaturas do policiamento comunitário diretamente pelos comandos das OPM, sem vínculo com o CICC da SSP, um dos equívocos da gestão política na polícia;
3) Manter patrulhas de resposta para atendimento das ocorrências e reforço;
4) Colocar as patrulhas especiais em apoio e operações permanentes....



OBSERVAÇÃO: Como a polícia ostensiva é apenas uma parte do sistema de justiça criminal, sabe-se que todas as medidas adotadas, por mais que tenham eficiência e tornem mais visíveis o policiamento ostensivo preventivo, apenas enxugam gelo contra o crime diante da impunidade permitida pela permissividade das leis, pela leniência da justiça e pela irresponsabilidade na execução penal.

sábado, 10 de outubro de 2015

POLICIAIS DE UPP SOFREM ÓDIO DE MORADORES EM FAVELAS

 



Policiais de UPPs dizem sofrer “ódio” de moradores em favelas . Pesquisa da Universidade Candido Mendes detalha a situação dos PMs empregados nas Unidades de Polícia Pacificadora do Rio de Janeiro

HUDSON CORRÊA
REVISTA ÉPOCA 10/10/2015 - 01h09 -


 

A maioria dos policiais militares das Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs), instaladas nas favelas do Rio de Janeiro, acha que os moradores sentem “ódio, desconfiança e medo” deles. Grande parte afirma que fica insegura e também insatisfeita durante o trabalho de policiamento nos morros cariocas. Mas, como última esperança, eles ainda conservam uma opinião positiva sobre as unidades pacificadoras. Esses dados são da pesquisa UPPs: o que pensam os policiais, feita pelo Centro de Estudos de Segurança e Cidadania (Cesec), da Universidade Candido Mendes, divulgada deste sábado (10). As pesquisadoras Silvia Ramos, Barbara Musumeci Mourão e Leonarda Musumeci entrevistaram 2002 policiais de 36 UPPs, entre 30 de julho e 19 de novembro de 2014. A amostra representa 21% do total de PMs nas unidades.



As UPPs em 2008 e ainda estão em expansão. Segundo o governo do Rio, as unidades pacificadoras têm a missão de retomar territórios dominados por traficantes de drogas e milicianos que agem armados com fuzis, metralhadoras e até granadas. O Cesec está na terceira rodada de pesquisas sobre o projeto. Atualmente, as unidades enfrentam uma onda de violência com mortes de policiais militares e de moradores, incluindo duas crianças de 11 anos neste ano.

Em 2010, na primeira sondagem, 66,5% dos entrevistados disseram que a maioria dos moradores tinha um “sentimento positivo” em relação a eles, policiais. Na segunda pesquisa, em 2012, a percepção de apoio caiu para 43,7%. Agora, no trabalho de 2014, apenas 25,1% acham que a população das comunidades os aprova. Para 60,1%, existe um “sentimento negativo” que, segundo eles, são “raiva, ódio, hostilidade, rejeição e aversão, desconfiança, resistência e medo”.

O Cesec perguntou se, nós últimos três meses, algum morador fez qualquer tipo de ofensa, pelo menos uma vez. Os números são surpreendentes: 65,8% relataram xingamentos, 63% reportaram desrespeito e 55,8% disseram terem sido alvos de arremesso de algum objeto. A Secretaria de Segurança Pública diz que essa última agressão vai da simples cusparada a um incrível caso do lançamento de um vaso sanitário sobre policiais militares, mas não deu detalhes sobre onde isso ocorreu.

“Como você se sente na maior parte do tempo, sendo policial de UPP”, perguntaram os pesquisadores. No questionário de 2012, 46,2% responderam que estavam satisfeitos, 26,4% insatisfeitos e 27,4% indiferentes. Em 2014, os índices passaram a apenas 28,3% de satisfeitos e 35,5% de descontentes. A pesquisa também perguntou se o policial se sentia seguro durante o trabalho na unidade pacificadora; 42,4% disseram que estão inseguros. O percentual aumenta em áreas mais violentas, que o Comando da PM define como áreas vermelhas.

Duas coisas importantes aconteceram entre as pesquisas de 2012 e 2014. As UPPs chegaram às áreas controladas pelos mais poderosos traficantes do Rio, como a Rocinha – na Zona Sul, a maior favela do Brasil com 69 mil habitantes – e o Complexo do Alemão, na Zona Norte, de onde partiam ordens para bandidos incendiarem carros e ônibus na cidade. Num segundo momento, os criminosos expulsos tentaram reocupar o território, usando táticas de guerrilha que causaram mortes de policiais militares. Em algumas favelas dos complexos do Alemão e da Vila Cruzeiro, percorridos por ÉPOCA, policiais militares visivelmente assustados patrulham becos estreitos sabendo que podem dar de cara com traficantes armados.

Algumas ações desastradas da PM alimentam o rancor dos moradores. Em julho de 2013, uma equipe da UPP da Rocinha torturou, matou e sumiu com o corpo do pedreiro Amarildo de Souza. Soldados com pouco preparo se envolvem em tiroteios que resultam na morte de inocentes, como a de uma criança de 11 anos no Alemão, em abril, e de outra da mesma idade no Complexo do Caju, em outubro. São cada vez mais frequentes os protestos em que moradores descem do morro até o asfalto com placas de "fora UPPs". O secretário de Segurança Pública, José Mariano Beltrame, diz que a polícia está isolada nas favelas sem ajuda de outros órgãos responsáveis pela assistência social.

A primeira vítima dessa guerra foi a policial Fabiana Aparecida de Souza, assassinada na favela de Nova Brasília, no Alemão, em julho de 2012. O crime acendeu a luz amarela na segurança das UPPs porque, conforme a pesquisa do Cesec, as policiais mantêm menos contato com suspeitos de crimes e, por isso, possuem chances menores de ficar no meio de um tiroteio. Desde 2012 até agora, 23 policiais militares morreram em serviço nas UPPs. O caso mais recente foi o do soldado Caio Cesar de Melo, morto no começo do mês no Complexo do Alemão. Além de policial, Melo trabalhava com a dublagem de personagens de cinema. Era dele a voz de Harry Potter na versão brasileira.

O pessoal das UPPs representa 20% do efetivo total da Polícia Militar, porém 8 dos 18 policiais militares mortos em serviço em 2014 pertenciam às unidades pacificadoras. Isso quer dizer que um soldado de UPP tem atualmente maiores chances de ser assassinado em relação aos que trabalham nos batalhões convencionais da PM.

Segundo a Secretaria de Segurança Pública, o aumento da violência provocou mudanças na estratégia de patrulhamento nas favelas. A pesquisa do Cesec mostrou que os grupos táticos, mais preparados para um conflito armado, empregavam 7,2% dos policiais em 2010. Agora o índice passou a 22,2%, enquanto a ronda a pé diminuiu.

A Secretaria de Segurança afirma que desde janeiro já treinou mais de 3 mil policiais, tanto para eles se protegerem melhor em eventuais confrontos, como para melhorar o relacionamento com moradores das favelas. Nem tudo está perdido. O Cesec mostra que 41% dos policiais ainda têm uma “opinião geral positiva” das UPPs contra 35,9% que a veem de modo negativo.

sábado, 26 de setembro de 2015

TERRITÓRIO DA PAZ NAUFRAGOU NO RS




ZERO HORA 26 de setembro de 2015 | N° 18306


LEANDRO RODRIGUES

TENTATIVA DE CHACINA NA CAPITAL. Guerra do tráfico chega a posto de saúde

HOMEM MORREU E SETE PESSOAS ficaram feridas após ataque no bairro Santa Tereza, em imediações de local que atende pelo SUS


Os tiros foram ouvidos no Pronto-Atendimento da Vila Cruzeiro (Postão) no começo da tarde de ontem. O som era de rajadas de submetralhadora. A torcida dos servidores para que fossem disparos para o alto terminou em minutos: uma multidão com feridos ensanguentados nos braços invadiu o local clamando por socorro.

O tumulto foi a sequência de uma tentativa de chacina na zona sul da Capital. As rajadas, por volta das 14h, deixaram um morto e sete feridos na Rua Nossa Senhora do Brasil, via atrás do Postão, no bairro Santa Tereza. Ademir Rodrigo Carpes, 34 anos, conhecido como Biquinha, não resistiu. Segundo a BM, quatro homens em um carro usavam uma submetralhadora contra o grupo. O setor de emergência foi invadido por uma horda de familiares e vizinhos exigindo, aos gritos, atendimento para todos.

– Trabalho há 25 anos aqui. Nunca tinha visto nada parecido. Ficamos todos apavorados. Demos conta o melhor possível – disse o médico Eduardo Osório, chefe do Serviço de Pediatria.

Conforme os funcionários, era para Carpes que mais exigiam atenção. O pavor foi tanto, que ele acabou atendido mesmo morto. Chegou a ser levado de ambulância para o HPS.

– Eles diziam que ele estava respirando. O que podíamos dizer? Tratamos como vivo – afirmou uma atendente.

Os sobreviventes foram encaminhados para o HPS e para o Hospital Cristo Redentor. Até a noite de ontem, recebiam atendimento.

TERRITÓRIO DA PAZ NAUFRAGOU

O tiroteio que deixou um morto e sete feridos no bairro Santa Tereza reacende uma discussão sobre a desativação da base dos Territórios da Paz no local. A unidade funcionava na Rua Nossa Senhora do Brasil, justamente onde começou a confusão, com uma tentativa de chacina na tarde de ontem.

O programa foi implantado pela Secretaria da Segurança Pública, em 2011, para conter o avanço da criminalidade em bairros violentos da Capital. Entre outras medidas, o projeto estabelecia a instalação de bases policiais e a realização de ações sociais nas áreas atendidas.

No Santa Tereza, em junho, o programa foi praticamente desativado. Móveis foram recolhidos, e a partir de então, apenas um policial militar passou a ficar no local.