O Policiamento Comunitário ou de Proximidade é um tipo de policiamento que utiliza estratégias de aproximação, ação de presença, permanência, envolvimento e comprometimento com o local de trabalho e com as comunidades na preservação da ordem pública, da vida e do patrimônio das pessoas. A Confiança Mútua é o elo entre cidadão e policial, entre a comunidade e a força policial, entre a população e o Estado. O Comprometimento é a energia.

Esta estratégia de policiamento visa garantir o direito da população à segurança pública, mas, tendo em vista que confiança é essencial, o sucesso depende de policiais preparados, do apoio da sociedade organizada, das comunidades, de leis respeitadas e da interação entre poderes, instituições e órgãos envolvidos num Sistema de Justiça Criminal que exige finalidade pública, observância da supremacia do interesse público, valor à vida das pessoas, comprometimento, objetivo, coatividade, instrumentos de justiça ágeis, execução penal responsável e forças policiais bem formadas, respeitadas, valorizadas, especializadas, atuando no ciclo completo e capacitadas em efetivos para exercer função essencial à justiça na preservação da ordem pública e da incolumidade das pessoas e do patrimônio.

domingo, 15 de outubro de 2017

GOVERNO DO RS PROJETA DOBRAR BASES MÓVEIS DA BM

COMENTÁRIO DO BENGOCHEA - Por ser itinerante, a base móvel contraria princípios da estratégia de policiamento comunitário: a continuidade, a permanência e o comprometimento com o local de trabalho. Deveria ser empregada como suporte aos policiais comunitários instalados de forma permanente nas comunidades. Por ser de proximidade, a estratégia de policiamento comunitário exige a fixação dos mesmos policiais nas comunidades para que se tornem conhecidos, se relacionem, conheçam perfeitamente o local de trabalho e aprimorem a confiança mútua entre as pessoas da comunidade, buscando soluções conjuntas.

GAUCHA ZH 13/10/2017

Marcelo Kervalt e Leonardo Lopes


Governo projeta dobrar bases móveis da BM em atuação no Estado. Proposta prevê que número de micro-ônibus aumente de nove para 18

Na sexta-feira, uma das unidades em funcionamento operava na Avenida Edgar Pires de Castro, na zona sul da CapitalAndré Feltes / Especial


A aproximação entre população e Brigada Militar (BM) por meio de bases móveis comunitárias entrará em nova etapa em 2018, quando o Estado promete dobrar a quantidade de veículos nas ruas. Mais nove viaturas serão agregadas ao projeto de policiamento, promovendo a expansão para cidades como Viamão e Alvorada. Porto Alegre tem quatro micro-ônibus e deve receber outras seis unidades.


Lançado em julho de 2016 pelo governador José Ivo Sartori, o projeto previa coletivos equipados com computadores ligados ao sistema Consultas Integradas — que possibilita pesquisar dados sobre pessoas, veículos e armas. Os coletivos têm cinco câmeras de monitoramento e nove telas que permitem o acompanhamento, inclusive, de imagens de outras câmeras espalhadas pela área de atuação. Conforme o coordenador-adjunto de polícia comunitária da BM, major André Marcelo Ribeiro Machado, os equipamentos não estão em operação.



— O que interessa para nós, da Brigada Militar, é a metodologia de trabalho. Com o micro-ônibus, a gente dá visibilidade ao policiamento, fica mais perto da população, consegue promover campanhas, palestras e outras ações programadas — comenta.


Os veículos existentes estão distribuídos, atualmente, na Capital, na Região Metropolitana e na Serra (leia quadro ao lado). Segundo o comandante-geral da corporação, Andreis Silvio Dal'Lago, os pontos são selecionados levando em conta estatísticas da criminalidade.


— As áreas escolhidas receberão investimentos em programas sociais para minimizar a violência. Serão espaços de recreação e centros de serviços. Como parte desta estratégia está a presença mais efetiva da Brigada Militar — explicou o major Ribeiro.



Patrulhamento em área determinada, mas sem data



Os policiais que atuarão nas bases móveis estão sendo capacitados para atendimento ao público, registro de ocorrências e para prevenção de crimes por meio de patrulhamento comunitário no perímetro de dois a três quilômetros ao redor do ponto de estacionamento do veículo. Não há uma data prevista para começo das atividades nem para aquisição dos veículos.


— Serão de seis a oito policiais que se revezarão em boa parte do dia.


Essa equipe terá motos à disposição.


O comandante será orientado a interagir com as lideranças da região para entender os problemas daquela comunidade — conclui o major.


DETALHE GAÚCHAZH - Em 2011, no governo Tarso Genro (PT), foi lançado o projeto Território da Paz. Com verbas do Ministério da Justiça, o projeto se propunha a reduzir os índices de violência e dar mais oportunidades de ensino, trabalho e lazer à comunidade, inicialmente nos bairros Bom Jesus, Restinga Velha, Lomba do Pinheiro e Cruzeiro, todos na Capital. A ideia acabou não dando certo.


Em Caxias do Sul, de projeto-piloto ao dilema

Na segunda maior cidade do Estado, iniciativa corre risco de se encerrarFelipe Nyland / Agencia RBS


Um impasse na parceria entre a prefeitura de Caxias do Sul e o governo do Estado coloca em dúvida a continuidade do policiamento comunitário na cidade que teve o projeto-piloto lançado há cinco anos e apostava na aproximação entre policiais e moradores para reduzir a criminalidade. A estratégia, outrora apontada como exemplo para o Estado, está prejudicada pela diminuição do efetivo policial ao longo dos anos e não há certeza do cumprimento dos objetivos na maioria dos bairros.


Ainda assim, a iniciativa mantém ampla aprovação popular e é apontada como o primeiro passo para uma cidade mais segura. Levantamento do jornal Pioneiro mostra que apenas nove dos 24 núcleos de policiamento comunitário funcionam plenamente e realizam trabalho preventivo em bairros e loteamentos da segunda maior cidade do RS — no município, conforme a BM, há uma base móvel comunitária.


A maioria dos moradores compreende as dificuldades da BM e evita criticar o programa com receio de que gestores públicos usem isso como argumento para dar fim à iniciativa. Ou seja, se no presente ainda não é possível contar plenamente com PMs atuando e residindo nos bairros, as comunidades defendem que esse seja o cenário do futuro.


A popularidade do policiamento comunitário, inclusive, parece ser a explicação para que governo estadual e prefeitura evitem críticas ao programa. Nos bastidores, no entanto, as administrações do governador e do prefeito Daniel Guerra (PRB) resistem em encontrar soluções para o projeto. A falta de ações de ambos os lados resultou no vencimento — em 17 de setembro — de um dos três convênios do programa e gera incertezas sobre o futuro do policiamento comunitário. Quem garante a continuidade do projeto é a própria Brigada Militar.


O comandante-geral da corporação, coronel Andreis Silvio Dal'Lago, salienta que, além de uma estratégia de atuação, o policiamento comunitário é uma filosofia de trabalho.


EM 2016.....


ZERO HORA - 30/07/2016

Bases móveis comunitárias da Brigada Militar não funcionam como prometido pelo governo do Estado. Discurso no lançamento foi de que micro-ônibus teriam câmeras acopladas e telas de monitoramento. Agora, BM contesta promessa




Marcelo Kervalt


Base Móvel Comunitária de Novo Hamburgo fica no bairro Santo Afonso, em frente à Praça da Juventude, e na Rua AlvearLauro Alves / Agencia RBS


Elogiado por especialistas em segurança pública, o projeto Bases Móveis Comunitárias da Brigada Militar (BM) enfrenta problemas operacionais já no primeiro mês de atuação. Dos quatro micro-ônibus prometidos pelo governo do Estado para reforçar o policiamento em áreas conflagradas da Região Metropolitana e no Vale do Sinos, nenhum atende ao que foi anunciado no lançamento da ação, há 25 dias, em Porto Alegre, com a presença do governador José Ivo Sartori.


No discurso, os coletivos seriam equipados com computadores ligados ao sistema Consultas Integradas – que possibilita pesquisar dados sobre pessoas, veículos e armas – cinco câmeras de monitoramento e nove telas que permitiriam o acompanhamento, inclusive, de imagens de outras câmeras espalhadas pela zona de atuação. Na prática, não é o que acontece.


Zero Hora visitou as quatro bases móveis – duas em Porto Alegre, uma em Novo Hamburgo e outra em Canoas – e constatou que apenas o bairro Rubem Berta, na Capital, conta com a estrutura anunciada no dia 7 deste mês. Ainda assim, nessa base, câmeras e monitores estão impedidos de funcionar por conta de incompatibilidade entre o sistema elétrico do veículo e a rede de energia externa.


– Nada funciona. Só o que pega é o ônibus mesmo – disse um soldado diante dos monitores, todos desligados.


Nos outros três pontos, são utilizados micro-ônibus que possuem apenas um notebook conectado à Internet. O bairro Santa Tereza, também na Capital, até chegou a receber o veículo prometido, mas, por problemas elétricos, foi substituído no dia seguinte à inauguração do programa. Em Canoas e Novo Hamburgo, os coletivos anunciados nunca chegaram. A BM, nesses municípios, emprega no projeto veículos dos próprios batalhões, que não têm câmeras ou monitores.


E, apesar da pompa com que o veículo-modelo foi apresentado no início do mês, agora a BM alega que o projeto não prevê ônibus equipados para monitoramento em vídeo em todas as bases


– O micro-ônibus (comum) cumpre a finalidade – disse o comandante da BM em Novo Hamburgo, tenente-coronel Marcel Vieira Nery.


– Planejamos as ações com o recurso que temos – complementou o comandante da corporação em Canoas, tenente-coronel Eduardo Amorim.


Especialistas aprovam iniciativa, mas cobram aplicação plena


Além dos coletivos, as quatro bases contam ainda com viaturas de apoio e 10 policiais militares (PMs) que se revezam em turnos de 12 horas. Nas visitas, a reportagem encontrou pelo menos dois brigadianos em cada base. Os demais, segundo os coordenadores, estariam em rondas pelo bairro com os veículos de suporte. Nessas patrulhas, os PMs ouvem reclamações, orientações e denúncias de moradores e comerciantes. Com os dados em mãos, são programadas visitas constantes aos locais indicados pela população, como pontos de tráfico.

Quando bem aplicado, o conceito de polícia comunitária é considerado promissor por especialistas como a professora do Departamento de Sociologia da UFRGS e integrante do grupo de pesquisa Violência e Cidadania Letícia Maria Schabbach.

– O caminho a seguir é esse. Reuniões com moradores e líderes comunitários deixam a população mais próxima da Brigada Militar. Isso é eficaz. Segurança pública não é só responsabilidade da polícia. Apoio a filosofia de que quanto mais atores estiverem envolvidos, melhores serão os resultados. Mas os policiais precisam ser amparados por bons equipamentos e tecnologias condizentes com a necessidade – disse Letícia.

O coordenador do Núcleo de Segurança Cidadã da Faculdade de Direito de Santa Maria (Fadisma), Eduardo Pazinato, que também é associado pleno do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, lembra que a metodologia de polícia comunitária é referenciada internacionalmente, por estimular a aproximação do Estado com a população:

– Essas bases dialogam com dois conceitos: estabelecimento de uma relação de confiança mútua e fortalecimento da presença do governo em regiões violentas, atuando na repressão e prevenção. E as câmeras de monitoramento nas bases são grandes aliadas, quando funcionam.


ZH visitou as quatro bases ao longo da semana. Veja como estão:


População pede horário de funcionamento ampliado


A eficácia das bases móveis comunitária não é consenso nas comunidades onde estão inseridas, principalmente em razão do período de funcionamento, considerado insuficiente por alguns moradores. Quem contesta o projeto, argumenta que os policiais deveriam permanecer até o avançar da noite, quando a criminalidade eclode. Proprietária de um mercado na Rua Caçapava, bairro Mathias Velho, em Canoas, a comerciante Vera Lúcia Malaquias diz não ter percebido a diminuição da violência na região:

– Para falar a verdade, não vi diferença nenhuma. O certo seria eles ficarem à noite também, que é o período mais perigoso. Esses dias tentaram me assaltar quando estava escuro, bem onde o micro-ônibus está hoje (terça-feira), mas, naquele horário, não tinha mais ninguém.

No bairro Santa Tereza, na Capital, moradores da Rua Bernardino Caetano Fraga contam que uma jovem foi espancada e assaltada no dia seguinte ao lançamento do projeto. O crime teria acontecido a 100m de onde deveria estar o micro-ônibus. Na área de atuação da mesma base, Alexandre Gonçalves, 33 anos, foi morto a tiros no dia 13 deste mês, em frente à UniRitter, ponto de estacionamento do coletivo. O corpo da vítima foi encontrado pela BM por volta das 6h40min.

Na Rua Dom Helder Câmara, Ítalo Augusto Silva dos Santos, 22 anos, e uma adolescente, Nicole Kemerich, 15 anos, estavam parados em uma esquina quando foram mortos a tiros por pessoas em um carro vermelho. Além deles, outras três pessoas foram encaminhadas ao Hospital Cristo Redentor. Uma delas, identificada como Letícia da Silva Gurska, 29 anos, não resistiu aos ferimentos e morreu. O crime aconteceu no dia 18 deste mês, a menos de um quilômetro da base móvel do Rubem Berta, por volta das 21h30min, horário em que o micro-ônibus não fica no bairro. Conforme o comandante-geral da BM, coronel Alfeu Freitas Moreira, o foco do programa é o policiamento preventivo:

– Os comandos locais diagnosticaram os horários mais propícios para a consecução de tal objetivo.

O tempo ideal de funcionamento das bases não é unanimidade entre especialistas. O ex-secretário nacional de segurança pública e coronel da reserva da PM de São Paulo José Vicente da Silva Filho diz que o horário precisa ser estipulado conforme a necessidade local, mas que não deve se estender além das 22h:

– Muitas vezes, a população confunde falta de policiamento com medo. A gente sabe que os bandidos têm hábitos noturnos, por isso o ideal é avançar até as 22h, mas não mais do que isso. Os bandidos também dormem de madrugada, e o patrulhamento nesse turno não cabe à polícia comunitária, que é de complemento às ações ostensivas.

Eduardo Pazinato, associado pleno do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, tem entendimento semelhante:

– É um espaço de referência para registro de ocorrências e identificação de situações que merecem atenção.

Para a socióloga Letícia Maria Schabbach, o recolhimento dos policiais logo após o pôr do sol deveria ser revisto.

– Não sei até que ponto é possível, mas o certo seria ampliar para a noite, até porque há escolas com ensino médio e EJA (Educação de Jovens e Adultos) funcionando até mais tarde.


Comunidades se dividem entre reclamações e elogios


Além da questão do horário de funcionamento, há quem diga que os pontos de tráfico e assalto apenas mudaram de endereço, estabelecendo-se em áreas periféricas aos micro-ônibus.

– Aqui, na praça, melhorou. Mas as pessoas agora são assaltadas em outros lugares do bairro. Ou quando a BM não está – reclamou a estudante Mirela Schilling Motta, 22 anos, moradora do bairro Rubem Berta, em Porto Alegre.

– A migração da criminalidade já era esperada. Estamos enfrentando isso através da Operação Avante e com trabalho continuado dos batalhões de área, com foco nas abordagens qualificadas – argumentou Freitas.


Apesar das críticas, há quem comemore a iniciativa:


– Melhorou 100%. Antes essa praça era muito agitada. Drogas e mais drogas. Agora a gente vê a tranquilidade. Por medo, eu trabalhava com a grade fechada. O único problema é que eles (policiais) ficam só de manhã aqui – opinou Laudir Francisco Chavier da Silva, 55 anos, comerciante e morador da Rua Carmelita Grippi, bairro Rubem Berta, na Capital.

Em Novo Hamburgo, no bairro Santo Afonso, o empresário Adair Rodrigues da Silva, de 40 anos, também é defensor da recém lançada estratégia da BM:


– (A presença do micro-ônibus) deixa a gente bem mais tranquilo. A região melhorou muito. Está mais segura.


ENTREVISTA: Cel Alfeu Freitas Moreira, Cmt Geral BM


"O objetivo principal é ser referência na comunidade", diz comandante-geral da Brigada Militar


Segundo o coronel Alfeu Freitas Moreira, comandante-geral da Brigada Militar (BM), o objetivo das bases móveis comunitárias é ampliar a atuação da corporação junto à população abrangida por meio de ações de polícia ostensiva em um raio de ação delimitado:

– Caracteriza-se por ações preventivas no comércio, nos estabelecimentos de ensino, nos postos de saúde, nos postos de combustíveis, nas áreas residenciais, enfim, em uma série de locais que por suas características possam levar ao evento crime.

O oficial afirmou que há um crescente número de solicitações da comunidade para a instalação de novas bases em outros bairros e cidades, e que essa possibilidade está sendo estudada. Por e-mail, o coronel deu explicações sobre os problemas encontrados pela reportagem durante visitas às bases móveis.

Uma incompatibilidade entre o sistema elétrico do micro-ônibus destinado ao bairro Rubem Berta e a fonte de energia externa impede funcionamento dos equipamentos eletrônicos, como câmeras e monitores. Isso não foi previsto?

O ônibus é configurado para rede trifásica de energia, necessitando uma adaptação à rede pública. Importante ressaltar que essa falta de adequação não inviabiliza o trabalho das bases móveis, pois o objetivo principal é ser uma referência na comunidade, com foco nas ações de prevenção no entorno dos locais de instalação.

O telefone funcional da mesma base não estava funcionando entre segunda e quinta-feira. Quando será consertado?

Soubemos desse problema e estamos interagindo com o comando do 20º Batalhão de Polícia Militar (BPM) para resolver. Deve-se salientar que a via de comunicação telefônica com a BM é o 190, que nos permite planejar ações, inclusive quantificando chamados e fazendo a mensuração da eficácia do serviço.


Diariamente, um micro-ônibus com as características dos prometidos às bases móveis fica estacionado no Parque da Redenção, na Capital, em frente ao Auditório Araújo Vianna, enquanto que apenas um dos pontos do projeto conta com veículo semelhante até agora.
(O veículo no parque) Existe em razão da iniciativa do comando local, face às ocorrências registradas naquela região, que é o entorno da UFRGS, entre outras demandas.


Apenas o bairro Rubem Berta, em Porto Alegre, recebeu, de fato, o micro-ônibus apresentado no dia do lançamento do projeto, com câmeras acopladas e monitores. No Morro Santa Tereza, também na Capital, um similar ficou apenas um dia, estragou e precisou ser substituído por outro comum. Novo Hamburgo e Canoas não receberam os veículo prometidos. Há previsão para que isso ocorra?
O ônibus do bairro Santa Teresa precisou de alguns ajustes de ordem técnica e retornará ao local. As bases móveis são compostas por ônibus que possibilitam o registro de ocorrências, nem todos os veículos têm câmeras acopladas.


Comando da BM contesta promessa de câmeras


Após responder por e-mail perguntas de ZH, o comandante-geral da BM, coronel Alfeu Freitas Moreira, telefonou à reportagem para acrescentar informações. O oficial afirmou que, embora um micro-ônibus moderno, com câmeras e monitores internos para acompanhamento das imagens, tenha sido a grande atração da cerimônia de lançamento das bases móveis comunitárias, com a presença do governador José Ivo Sartori, no dia 7 deste mês, o projeto não prevê que todas as quatro bases disponham de veículos semelhantes.


– Aquele micro-ônibus foi utilizado no dia (do lançamento) porque era o melhorzinho que nós temos – explicou Alfeu.


De acordo com o comandante, a corporação ganhou três desses coletivos por meio de um programa do governo federal, o qual não soube especificar, há cerca de quatro anos. O coronel afirmou que o uso em algumas das bases móveis teve a finalidade de dar utilidade aos veículos, que estavam parados.


Ação reforça aposta em polícia comunitária



O conceito de polícia comunitária, com as bases móveis, vem sendo implantado pela Brigada Militar (BM) desde a década de 1970, conforme o associado pleno do Fórum Brasileiro de Segurança Pública Eduardo Pazinato. Em 2011, durante o governo Tarso Genro, a estratégia ganhou destaque como uma das principais iniciativas que integravam os Territórios de Paz, criados em 2011. Cinco anos depois, o programa, que ainda existe do ponto de vista burocrático, fracassou por falta de verbas federais e, em uma visão realista, foi abandonado.


– O Território de Paz não teve o alcance que se esperava. Demandava um esforço mais amplo do que foi feito, pois contemplava muitos projetos sociais que, na prática, não se desenrolaram. O que ficou de bom foi a polícia comunitária – avaliou Pazinato, que geriu o recurso do Território de Paz canoense entre 2011 e 2012, quando foi secretário de Segurança Pública no primeiro mandato do prefeito Jairo Jorge


– As bases móveis começaram a ser introduzidas com o Território de Paz. O que há agora é uma continuidade, pois o policiamento comunitário é um dos projetos sob o seu guarda-chuva. Então, se olhar pelo lado da polícia comunitária, não posso dizer que não deu certo – complementou a socióloga Letícia Maria Schabbach, integrante do grupo de pesquisa Violência e Cidadania da UFRGS.
Território de Paz do bairro Restinga, em Porto AlegreDiego Vara / Agencia RBS


A Secretaria da Segurança Pública (SSP) diz que as atividades dos Territórios de Paz não acabaram, mas que foi restabelecida a autonomia funcional para a BM e Polícia Civil. Desta forma, o controle sobre os efetivos retornou aos comandantes de batalhão e aos delegados responsáveis pelas áreas. Os prédios que eram ocupados pelo programa pertencem, em sua maioria, a centros comunitários e associações de bairro. Esses imóveis foram ou estão sendo devolvidos às entidades.


Sem prazo definido, a SSP planeja construir quatro bases comunitárias, uma em cada território, onde deverão ser desenvolvidas as atividades de polícia comunitária, com atuação conjunta de Polícia Civil, BM e Guarda Municipal.


O Territórios de Paz foi implementado em áreas conflagradas do Estado, onde o índice de homicídios era muito alto. O objetivo era reprimir a violência nestes locais e oferecer projetos sociais. A verba era oriunda do Programa Nacional de Segurança Pública com Cidadania (Pronasci), criado em 2007 pelo próprio Tarso, quando foi ministro da Justiça no governo Luiz Inácio Lula da Silva. No primeiro mandato de Dilma Rousseff, o projeto foi engavetado.

RELÓGIO BIOLÓGICO. MUDANÇA DE HORÁRIO PODE CAUSAR ESTRESSE E ERROS NA TOMADA DE DECISÃO




GAUCHAZH 13/10/2017




Guilherme Justino

Nobel de Medicina dá o recado: preste atenção no seu relógio biológico. Premiação deste ano soou o alarme para que mais pessoas tenham consciência da importância desse mecanismo no decorrer da vida



Na era digital, da aviação comercial e de noites que viram dias, chegou a hora de reconhecer a importância do relógio biológico. Esse sistema inato ao corpo humano — e a todos os seres vivos —, que se regula conforme a percepção da presença ou ausência da luz solar, é responsável por determinar a disposição diária para todas as atividades, do trabalho às relações sociais, da alimentação ao sono. É o que faz alguém cair de rendimento à noite, bocejar por horas se acorda muito cedo e ficar geralmente mais atento ao longo do dia: um eterno ciclo de 24 horas que, se não respeitado em seu devido tempo, pode comprometer a saúde.


O Prêmio Nobel de Medicina ou Fisiologia deste ano, entregue a três pesquisadores norte-americanos, soou o alarme para que mais pessoas tenham consciência da importância desse mecanismo no decorrer da vida. A existência de algum tipo de sistema interno que leva à repetição de certos fenômenos biológicos em determinadas horas do dia já era conhecida de longa data. Pelo menos desde 1729, quando o astrônomo francês Jean Jacques d'Ortous de Mairan observou que as folhas de um gênero de plantas se abriam e fechavam na mesma hora do dia, mesmo quando colocadas em um quarto escuro — o que sugeriu a existência de um relógio biológico.


Os nobeis Jeffrey C. Hall, Michael Rosbash e Michael W. Young foram os responsáveis por descobrir, séculos depois, os mecanismos moleculares que controlam o ritmo biológico nos seres vivos, o chamado ritmo circadiano. Se pensarmos que o organismo funciona como um relógio cuco, podemos dizer que eles encontraram o mecanismo que move os ponteiros e anuncia o passar de cada hora com o canto da ave. A pesquisa que revelou esse funcionamento foi publicada na década de 1980, mas só agora reconhecida com uma das maiores premiações da ciência mundial. Será que a distinção não chegou com algum atraso?


— Ritmos circadianos têm sido estudados principalmente desde a década de 1970, então formam um campo ainda novo. Muitos de fora dessa área não sabem quão importante isso é para todos, para toda a biologia e a medicina. Fiquei positivamente surpreso ao ver esse Nobel: não esperava que fosse chegar tão cedo. Essa distinção vai acelerar o conhecimento dos ritmos circadianos para as discussões públicas e científicas, o que vai ser bom para todo mundo — comemora o neurobiólogo Benjamin Smarr, pesquisador pós-doutorando no Departamento de Psicologia e Neurociência da Universidade da Califórnia em Berkeley, nos Estados Unidos.

Luz artificial e prejuízos para a saúde


O neurobiólogo Benjamin Smarr destaca que saber mais sobre o relógio biológico é especialmente importante na contemporaneidade, quando a invenção da luz elétrica e a profusão de itens que emanam uma iluminação própria contribuem para dificultar a percepção do corpo sobre o ciclo claro-escuro. Já não é mais o raiar do dia que nos alerta para a necessidade de acordar, nem o escurecer noturno que nos leva a sempre buscar o descanso. Agora há alarmes, ambientes iluminados, atividades sendo realizadas durante as 24 horas.


— Nossas vidas modernas são muito disruptivas para os ritmos circadianos. Luz à noite, smartphones, alimentação noturna e alarmes provocam um "jet lag social" e nos causam males ao longo da vida — avalia o Ph.D. em neurobiologia.


Portanto, não é de se estranhar relatos de dificuldades para pegar no sono quando, minutos antes de ir para a cama, ficamos acostumados a estar em ambiente iluminado por lâmpadas, com televisores ligados, computadores e smartphones emitindo luz artificial bem diante dos olhos — tudo isso enquanto o corpo, preparando-se para o repouso, espera a escuridão.


— A exposição à luz artificial à noite é prejudicial porque inibe a produção de melatonina. Esse hormônio sinaliza ao corpo que é noite e favorece o sono. Dessa forma, olhar essas telas à noite pode acarretar, a longo prazo, diversos distúrbios de sono e suas consequências para a saúde — afirma Gisele Akemi Oda, coordenadora do Laboratório de Cronobiologia da Universidade de São Paulo (USP).


O descompasso entre o ciclo de iluminação que o corpo espera e aquele a que realmente acaba sendo exposto preocupa principalmente porque provoca alterações que podem impactar no desenvolvimento de problemas físicos e mentais. Ter poucas horas de sono, comer em horários desregulados, praticar atividades físicas logo antes de (tentar) dormir e levar os estudos madrugada adentro são alguns exemplos de questões que resultam em um desajuste no relógio biológico. Desajuste esse que representa um baque significativo para o sempre tão certinho ritmo do corpo.


Luz à noite, smartphones, alimentação noturna e alarmes provocam um "jet lag social" e nos causam males ao longo da vida. Benjamin Smart, neurobiólogo


— A eficiência de todas as atividades fica comprometida, com consequências para a própria saúde, quando uma pessoa se alimenta em uma fase em que o sistema digestório não está programado para ter maior eficiência, quando é exigida atenção em uma fase associada ao sono, quando ela se exercita em uma fase associada ao repouso — garante Gisele Oda.


Segundo a coordenadora do Laboratório de Cronobiologia da USP, complicações cardiovasculares, obesidade, incidência maior de acidentes e depressão estão sendo cada vez mais associadas ao trabalho noturno — fora do padrão predominantemente diurno do organismo humano para aquelas ações que exigem mais esforço.


Há décadas estudando a área conhecida como cronobiologia humana, Fernando Mazzilli Louzada explica que o descompasso ocorre porque o corpo, ao longo de toda a evolução, foi se preparando para caçar e comer enquanto há luz do sol, e para descansar quando a escuridão predominava. A constante disrupção desse padrão na atualidade provoca alterações no metabolismo — o que pode levar ao surgimento de doenças como diabetes, alterações na pressão arterial e também problemas psiquiátricos.


— Para o corpo, ficar exposto rotineiramente à desorganização do próprio ritmo leva a problemas de saúde que poderiam ser evitados com mais conhecimento e cuidado — diz Louzada, professor do Departamento de Fisiologia e coordenador do Laboratório de Cronobiologia Humana da Universidade Federal do Paraná (UFPR).


Isso não quer dizer que se alimentar de madrugada, correr em plena noite ou dormir a tarde inteira vão necessariamente causar problemas de saúde: as pesquisas alertam para o fato de que, se não tomados alguns cuidados — como respeitar os próprios limites, repousar quando o corpo pede e manter uma alimentação equilibrada, especialmente para quem segue rotinas desreguladas —, os efeitos podem passar do mero desconforto e, quando aliados a outros fatores, contribuir para o desenvolvimento ou dificultar o controle de doenças graves.

Dificuldade de ajustar os ponteiros


— Quem trabalha durante a noite precisaria evitar completamente a luz do sol durante o dia, até mesmo nas folgas, para que o corpo se adaptasse a esse horário. Isso, claro, é para poucos — problematiza Michael Gorman, especialista em ritmos circadianos de mamíferos que estuda como melhorar a adaptação humana ao trabalho noturno e ao jet lag.


Para o pesquisador do Centro de Biologia Circadiana da Universidade da Califórnia em San Diego, nos Estados Unidos, quanto mais se afasta do que o corpo espera, mais difícil é acostumá-lo a enfrentar algumas situações. Dormir até algumas horas depois de o Sol raiar e se exercitar ao cair da tarde não vão provocar alterações tão significativas quanto trabalhar dia após dia de madrugada. Gorman garante que o diferencial está na exposição à luz solar: se alguém que precisa acordar mais cedo se coloca rotineiramente diante do Sol matinal, pode acabar acostumando o corpo à mudança, ainda que anteriormente a preferência fosse por dormir até mais tarde.


O problema é que muitas rotinas se perdem nos fins de semana. O merecido descanso que dá direito a acordar quase na hora do almoço aos sábados e domingos representa um choque para o organismo, que não entende por que, ao longo de cinco dias da semana, deve funcionar de uma maneira e, nos outros dois, tem que mudar tudo de novo. Eis aí a maior dificuldade de ajustar os ponteiros do próprio relógio biológico: se a rotina laboral é uma e a de dias de folga é outra, a adaptação fica prejudicada.


Matutinos x vespertinos


O coordenador do Laboratório de Cronobiologia Humana da UFPR, Fernando Louzada, acredita que não existe adaptação do ritmo circadiano. Para ele, ou funcionamos melhor de manhã cedo ou preferimos a tarde — o que dividiria a sociedade entre os cronotipos matutino e vespertino. Ainda que haja diferença entre os horários mais adequados para determinadas atividades de pessoa para pessoa, o organismo humano não estaria preparado para uma mudança tão drástica no seu padrão evolutivo quanto passar com frequência a noite inteira acordado.


— A palavra "adaptação" não tem como ser usada: existe maior ou menor tolerância com esses horários. O corpo não foi feito para trabalhar (com carga máxima) à noite. Não há adaptação quando temos uma constante desorganização dos ritmos — estima o pesquisador.


Para quem não tem opção e precisa realizar atividades desgastantes nos horários em que o corpo preferiria estar dormindo, algumas dicas para aumentar a tolerância do organismo incluem manter uma alimentação mais leve — já que o organismo tem menor capacidade de digestão à noite —, evitar a exposição direta à luz solar na hora em que é possível descansar e dormir bem, de preferência em um ciclo único, e não com cochilos esparsos.

O que é afetado pelo ritmo circadiano

Aprendizagem e memória: as horas mais adequadas variam de pessoas para pessoa, mas sabe-se que é mais eficaz aprender durante a manhã ou a tarde. A atividade cerebral varia conforme o relógio muda, e não há período de menor capacidade de concentração que durante a madrugada.

Envelhecimento: conforme os anos passam, o corpo tem mais dificuldade de manter as engrenagens de todos os relógios biológicos das células. Envelhecer envolve também maior predisposição a problemas de metabolismo, que acaba ficando mais lento.

Jet lag: trocar de fuso horário muito rapidamente — algo comum em viagens longas pela aviação comercial — leva a um desalinhamento do relógio interno. Quando a hora do dia muda de maneira forçada, é comum se sentir mais sonolento. Uma variação desse fenômeno acontece quando se volta a acordar cedo depois de um fim de semana dormindo até tarde.

Nutrição: não apenas o sono é controlado pelo relógio interno: também a fome surge nos horários em que o organismo mais está acostumado e disposto a fazer a digestão. E, quanto mais tarde, menor costuma ser a capacidade de absorver os nutrientes adequadamente.



Conheça o perfil do seu relógio biológico e viva melhor. A desregulação do seus ponteiros internos pode ser a causa de noites mal dormidas, quilinhos a mais, da falta de paciência e até doenças emocionais


Bruna Scirea




O relógio ainda nem marcou 22h, e ele já está se preparando para dormir. É bem o horário em que ela está com a corda toda, querendo puxar conversa, assistir a um filme, planejar o dia seguinte, a semana, o mês, o ano. Cheio de sono, ele mal ouve o que ela tem a dizer. De manhã, a cena se inverte: lá está ele cantarolando no chuveiro, liga a televisão para sair de casa informado, reclamando de alguma coisa, falando sem parar. Ela fica só se perguntando de onde alguém tira tanta energia e assunto logo no início do dia.


Nossa vida é ajustada de acordo com as horas cronometradas nos relógios de pulso, na tela do celular, no painel do carro ou nos equipamentos instalados em paredes e movimentadas esquinas. São 22h para ele, assim como são 22h para ela. Só que existe um tempo que é interior a cada um, que rege o organismo de uma maneira bastante particular. Para além das horas convencionais, é o relógio biológico que determina se você é daqueles que acorda às 6h cheio de energia para gastar, ou se faz parte do grupo dos que se levantam às 11h implorando por mais uns minutinhos de sono.


O chamado relógio biológico é um sistema composto por vários relógios espalhados pelo corpo, controlados por um marca-passo que fica no cérebro. E o que fazem esses relógios internos? Um monte de coisa: são responsáveis pelo controle dos ritmos biológicos, geneticamente predefinidos, que regulam os horários de dormir, acordar, comer, ir ao banheiro, liberar hormônios, entre tantas outras funções diárias.


– Este sistema regula o nosso tempo interno e o ajusta conforme o tempo externo. A partir da luz, ele faz com que o organismo entenda que a cada 12 horas existe o claro ou o escuro. E, a partir disso, ele sincroniza todas as funções do corpo de forma encadeada. Não à toa, por exemplo, os hormônios são liberados de forma rítmica. Pela manhã, sou acordada devido a uma carga de cortisol. À noite, no escuro, é produzida a melatonina, o hormônio do sono. Da mesma forma são reguladas a temperatura do corpo, a pressão arterial e todas as demais atividades fisiológicas – explica Claudia Moreno, professora da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (USP) e coordenadora do Departamento de Cronobiologia da Associação Brasileira do Sono (ABS).


Os cronotipos


Dentro da cronologia, ciência que passou a ser estudada principalmente a partir da década de 1960, a complexa engrenagem que existe dentro de cada um faz com que a população se divida em alguns cronotipos, como são chamados os perfis dos relógios biológicos. Boa parte dos especialistas trabalha com três categorias, baseadas principalmente nos horários de dormir e acordar, uma vez que a liberação da melatonina (o hormônio do sono) funciona como um abre-alas para o desencadeamento de todas as demais funções.


Os matutinos representam 10% da população e são os que preferem acordar cedo, ficam sonolentos quando passa do horário de dormir (geralmente às 21h) e apresentam melhor desempenho no período da manhã. Os vespertinos, parcela que reflete outros 10% dos indivíduos, são os que estão mais dispostos por volta das 20h, preferem dormir tarde e têm dificuldade para acordar cedo. Devido à rotina, costumam ter menos horas de sono do que deveriam, e usam o fim de semana para reabastecer as energias. Os intermediários são a maioria (cerca de 80% da população) e conseguem se ajustar aos horários com maior facilidade do que os outros dois grupos.


Agora, pense na sua rotina: seria possível respeitar a engrenagem que existe em você? Dormir, acordar, ir ao banheiro, fazer sexo, comer, discutir o relacionamento e trabalhar nos horários em que o seu corpo está mais propenso para cada atividade? Se sim, comemore. Seguindo o "timing" correto do seu corpo, você terá desempenho máximo em tudo o que fizer, levará uma vida mais leve e longeva.


Só que essa é uma condição rara. Provavelmente a sua resposta para essas perguntas é um desanimador "não". É, a vida social nos impõe uma agenda própria que dificilmente pode não ser cumprida. Até aí tudo bem, o temporizador interno se ajusta a algumas situações. Agora, se o seu relógio estiver totalmente dessincronizado (como é o caso de trabalhadores noturnos e pessoas que estão constantemente viajando e alterando o fuso horário), preste atenção! Essa pode ser a causa das noites mal dormidas, dos quilinhos a mais, da falta de paciência com as tarefas do trabalho e até mesmo de doenças emocionais, como a ansiedade e a depressão.


Siga seu cronotipo e viva melhor


Você já deve ter lido reportagens e livros sobre o que e como fazer para ser bem-sucedido. "Como perder peso?", "O que comer?", "Como agradar o parceiro na cama?" são algumas das questões levantadas com certa frequência. Recentemente, um psicólogo norte-americano, Michael Breus, lançou um livro trazendo uma nova pergunta, cuja resposta, segundo ele, deve ser a chave para uma vida com mais qualidade: "Quando?".


Na obra O Poder do Quando (Editora Fontanar), nas prateleiras do Brasil desde a metade de fevereiro, o especialista em medicina do sono defende pequenos ajustes nos horários das tarefas diárias – como quando tomar uma xícara de café ou a melhor hora do dia para responder um e-mail –, adaptando-as ao relógio biológico (cronotipo) de cada um. Sincronizando o ritmo do dia com o ritmo da biologia, garante Breus, você poderá tirar o melhor de si e de seus relacionamentos.


– Para todas as atividades, sabemos que, quando feitas na hora certa, serão feitas melhor – afirma Breus, em entrevista concedida a Zero Hora por e-mail.


Incomodado com as limitações dos três cronotipos que boa parte dos especialistas adotam, o psicólogo desenvolveu uma categorização própria, inspirada em comportamentos de quatro mamíferos: golfinhos, leões, ursos e lobos. Conheça.


Como funciona o relógio biológico




1. O cronomestrista do corpo é o seu marca-passo circadiano, também conhecido como relógio biológico: um grupo de nervos chamado núcleo supraquiasmático, localizado no hipotálamo, logo acima da hipófise. Ele dá ordem a todos os ritmos biológicos do seu corpo.


2. Este temporizador é sincronizado principalmente pela luz solar, que o informa se é dia ou noite. De manhã, a luz do sol atravessa os globos oculares, percorre o nervo óptico e ativa este núcleo para recomeçar o ritmo circadiano (que compreende mais ou menos o período de 24 horas). Está sinalizado que é dia.


3. A partir da sincronização do temporizador, uma série de outros relógios começa a operar de forma encadeada. É como uma orquestra funcionando com vários instrumentos em sintonia. Por exemplo: de manhã ocorre a liberação do hormônio cortisol, e é por isso que você acorda. A temperatura do corpo sobe, a pressão corporal e o peso variam ao longo do dia, e hormônios, como o da fome e da saciedade, são liberados conforme esses relógios ordenam. Durante a tarde, a temperatura corporal diminui e se inicia novamente a preparação para dormir.


4. Quando está escuro, a intensidade de luz que chega aos nervos do núcleo supraquiasmático informa que é noite. Nessas condições, entra em ação a glândula pineal, responsável pela produção da melatonina, o hormônio do sono. E você dorme. Mas os relógios continuam funcionando, ordenando o funcionamento de todo o organismo (fazendo, por exemplo, com que você não sinta fome e não precise ir tantas vezes ao banheiro durante a noite). Quando amanhecer novamente, será desencadeada outra série de funções que ocorrem durante o dia.


Os prejuízos dos relógios desajustados


É na vida adulta (entre os 21 e os 65 anos) que se revela o verdadeiro relógio biológico de cada um. Antes disso, na infância, todos passam por uma fase matutina (ainda que o Ensino Fundamental se dê praticamente todo no período da tarde). Na adolescência, o predomínio é do cronotipo vespertino (ainda que aulas do Ensino Médio geralmente ocorram de manhã). Após os 65 anos, os idosos queixam-se de distúrbios de sono, e não raro se torna necessário dormir um pouco de noite e mais um tanto de dia.


Ou seja, de um jeito ou de outro, é bem provável que todos passem boa parte da vida enfrentando o cronodesajuste, como é chamada a dessincronizarão do relógio biológico em relação ao social. Isso se agrava ainda mais entre aqueles que trabalham no período noturno, os que não têm uma rotina fixa e os milhões de indivíduos que dormem tarde porque bloqueiam o sono (a produção de melatonina) com a luz azul, emitida por tablets e celulares.


– Serão felizes as pessoas que puderem respeitar o seu ritmo interno, que puderem dormir quando têm sono e ter todas as outras necessidades fisiológicas no horário em que o organismo disser "agora é meu horário". Só que, infelizmente, quase ninguém pode fazer isso, pois quem rege o nosso relógio é a sociedade – afirma Maria Paz Hidalgo, coordenadora do Laboratório de Cronobiologia do Hospital de Clínicas de Porto Alegre.


Se não seguir à risca o seu relógio interno, pode ser que você só não esteja aproveitando o seu rendimento máximo nas tarefas diárias – o que já é ruim, na avaliação do psicólogo Michael Breus, autor do livro O Poder do Quando. Mas pode ser que o seus os ponteiros internos estejam tão dessincronizados que tragam uma ação devastadora para o seu bem-estar físico, mental e emocional. Quem sofre mais, neste caso, são os "lobos" e os "golfinhos", ou seja, os de cronotipo vespertino e os de perfis extremos, que dificilmente se adaptam aos horários da sociedade.


– Uma pessoa vespertina, por exemplo, pode ter vontade de dormir somente a partir das 2h, porque é quando a melatonina dela é liberada. Ela vai para cama neste horário e, consequentemente, irá dormir até mais tarde. Até aí, tudo bem. O problema é se ela tem de trabalhar todos os dias às 7h. É aí que está o desajuste, que pode trazer muita dificuldade para a vida dela – avalia Claudia Moreno, pesquisadora da USP.


A regra número 1 do relógio biológico



Se adaptar o horário de trabalho ao próprio relógio biológico não for possível – uma opção nada simples em tempos de pouca de oferta de emprego – o recomendado é uma rotina que vale para todos os cronotipos: ficar exposto à luz solar o máximo possível durante a manhã. Ao voltar para casa, no fim do dia, evitar o excesso de luz e o uso de equipamentos eletrônicos. Não se alimentar tarde demais, não praticar exercícios físicos antes de dormir, não acordar em horários diferentes no fim de semana. É preciso manter uma rotina. E, acima de tudo, lembre-se: a regra número 1 do relógio biológico são as boas horas de sono. Sem elas, todas as demais funções serão arrastadas ao longo do dia no compasso errado.


– Pelo menos 30% das crianças e adolescentes têm distúrbios de sono, e eles podem ser muito mais danosos nestas fases da vida, que são as de desenvolvimento. É fundamental aprender a dormir desde cedo. E os pais têm de ajudar, sabendo que o sono deles não é o mesmo do dos filhos, que não está certo deixá-los dormir no sofá da sala, em frente à TV. As crianças têm de ter o quarto delas, onde devem se preparar para dormir, com uma luz fraca, a leitura de um livro e, definitivamente, longe dos equipamentos eletrônicos – recomenda Felipe Kalil, neurologista infantil do Hospital São Lucas, em Porto Alegre.


– Quando adultos, levantamos cedo porque temos de fazer exercícios físicos, levar os filhos para a escola, assistir às notícias, ler todos os e-mails. E só dormimos quando sobrar tempo. Preocupados com a boa forma, procuramos um personal trainer.


De olho na dieta, consultamos uma nutricionista. Está correto. Mas e o sono? Dificilmente alguém tem a mesma preocupação com as horas dormidas – complementa o neurologista Geraldo Rizzo, coordenador do Centro de Distúrbios do Sono do Hospital Moinhos de Vento.



Manter a rotina é o segredo para cuidar do seu relógio biológico. Fazer a mesma coisa todos os dias pode ser chato para o cérebro, mas é o mais indicado para o corpo




Guilherme Justino








Apesar de toda a tecnologia que rodeia a maioria das pessoas atualmente, é como se, para o nosso corpo, tivéssemos acabado de descobrir o fogo. O longo processo de evolução determinou que nosso relógio biológico favorecesse o dia para as atividades que mais demandam esforços físicos e mentais, enquanto a noite seria o turno de recuperação. A inversão desses orientações internas com regularidade é algo muito recente — ainda um corpo estranho para o organismo humano.

Mas mesmo quem não troca repetidas vezes o dia pela noite costuma provocar alterações no relógio biológico. Às vezes, acontece de se acordar mais cedo, trabalhar até mais tarde, pular uma refeição, passar a noite em claro. E cada uma dessas ações é vista como um imprevisto pelo ritmo circadiano, que não gosta nada de alterações no seu dia a dia. Manter rotinas rígidas pode ser chato para o cérebro, que gosta de desafios, mas, para o corpo, é o que há de mais indicado.

— O melhor conselho que posso oferecer é buscar a estabilidade. Durma, coma e se exercite no mesmo horário a cada dia, na medida do possível. Isso ajuda todos os relógios do nosso corpo a se alinharem, e quanto melhor alinhados estiverem internamente, melhor vai ser sua saúde física e mental — recomenda o neurobiólogo americano Benjamin Smarr.

Essa predileção pela rotina não significa que qualquer deslize vá comprometer o funcionamento do relógio biológico. Alterações transitórias, como ficar acordado para ir a uma festa ou dormir um pouco a mais antes de um dia em que haverá alguma privação do sono costumam ser logo superadas.

— Ocorre, de alguma maneira, um desgaste fisiológico. Mas o organismo volta ao normal depois de algum tempo. Há mais riscos envolvidos quando as alterações se tornam crônicas — define Maria Paz Loayza Hidalgo, coordenadora do Laboratório de Cronobiologia e Sono do Hospital de Clínicas de Porto Alegre.

Para a professora, as vantagens de seguir uma rotina para as atividades básicas, mesmo nos dias de folga e até nas férias, incluem maior disposição, melhor humor e períodos de repouso mais regulares e completos. É quando acordar na mesma hora todo dia passa a ser um hábito, e não um susto promovido por um despertador, que o relógio biológico começa a funcionar melhor.

Regule seu relógio

Saber se você funciona melhor acordando de manhã cedo ou indo dormir mais tarde ajuda a planejar os melhores momentos para realizar todas as atividades do dia a dia.

Procure estabelecer horários relativamente fixos para acordar, comer, fazer exercícios, dormir. O corpo gosta de manter uma rotina saudável.

Se puder, evite manter hábitos muito diferentes no fim de semana. Dormir durante toda a manhã de domingo quando é preciso acordar cedo na segunda prejudica a disposição.

Antes de dormir, procure diminuir a incidência de luz em casa e tente se afastar dos aparelhos eletrônicos. Essa luz dificulta o entendimento de que é noite para o corpo.

O que é afetado pelo ritmo circadiano


Aprendizagem e memória: as horas mais adequadas variam de pessoas para pessoa, mas sabe-se que é mais eficaz aprender durante a manhã ou a tarde. A atividade cerebral varia conforme o relógio muda, e não há período de menor capacidade de concentração que durante a madrugada.

Envelhecimento: conforme os anos passam, o corpo tem mais dificuldade de manter as engrenagens de todos os relógios biológicos das células. Envelhecer envolve também maior predisposição a problemas de metabolismo, que acaba ficando mais lento.

Jet lag: trocar de fuso horário muito rapidamente — algo comum em viagens longas pela aviação comercial — leva a um desalinhamento do relógio interno. Quando a hora do dia muda de maneira forçada, é comum se sentir mais sonolento. Uma variação desse fenômeno acontece quando se volta a acordar cedo depois de um fim de semana dormindo até tarde.

Nutrição: não apenas o sono é controlado pelo relógio interno: também a fome surge nos horários em que o organismo mais está acostumado e disposto a fazer a digestão. E, quanto mais tarde, menor costuma ser a capacidade de absorver os nutrientes adequadamente.


COMENTÁRIO DO BENGOCHEA -  Na atividade policial não há uma rotina e os horários de trabalham mudam o que é prejudicial à saúde e à tomada de decisão. O prêmio Nobel poderá dar mais importância aos gestores e executores policiais sobre as  jornadas de trabalho a que são submetidos, para estabelecer rotinas para melhor desempenho, menos erros e cuidados com a saúde de quem tem o dever de salvar as pessoas, proteger as comunidades e enfrentar o crime.

segunda-feira, 10 de julho de 2017

VIGILANTES COMUNITÁRIOS


DIÁRIO GAÚCHO, 07/07/2017
Em Alvorada. Vaquinha para câmeras, apitaço e adesivos: como um bairro se uniu contra a violência
Comunidade criou rede de colaboração com 3,7 mil pessoas para combater a violência no bairro Jardim Algarve


Ao todo, são 25 grupos de WhatsApp para trocar mensagens sobre suspeitas de crimesFoto: André Ávila / Agencia RBS

Marcelo Kervalt



As rodas de conversa em que os vizinhos falavam sobre a rotina acabavam sempre em relatos de criminalidade. O medo da ação de assaltantes fez com que um grupo de moradores criasse uma rede de colaboração contra a violência e a insegurança.

Hoje, 3,7 mil pessoas que vivem no Bairro Jardim Algarve, em Alvorada, participam de 25 grupos de WhatsApp e se intitulam Vigilantes Comunitários. A iniciativa mais recente é uma vaquinha online, criada para comprar câmeras de vigilância por meio de colaboração de diferentes pessoas. A ideia é comprar pelo menos seis equipamentos e instalá-los em pontos estratégicos do bairro para monitoramento 24 horas.

Até sexta-feira, R$ 3 mil dos R$ 8,8 mil pretendidos haviam sido arrecadados. No final de junho, em quatro dias, foram registrados nove crimes como assalto a pedestres e furto e roubo de veículos, o que despertou a indignação dos moradores.

De forma organizada, a comunidade recorreu ostensivamente às redes sociais com apelo para aumento da segurança pública: "Pedimos que pelo amor que os senhores sentem pelos seus filhos nos ajudem a cuidar dos nossos", diz parte da mensagem enviada pelos Vigilantes Comunitários.

— Somos grupos de segurança preventiva com quase 4 mil pessoas que se comunicam via WhatsApp — explica o idealizador do projeto, o motorista Alex Steffani, 35 anos.

Em 2015, Steffani e a mulher perceberam que o medo era constante no bairro. Decidiram, então, unir a comunidade para remediar o problema. No WhatsApp, trocam informações sobre atividades suspeitas nas proximidades.

Nesses quase dois anos de existência, a comunidade se organizou para adesivar seus veículos e facilitar, assim, a identificação de automóveis suspeitos rondado o bairro. A liberação dos adesivos verdes dos Vigilantes Comunitários é controlada. Além disso, apitos foram distribuídos para que, do interior de suas casas, se inicie um apitaço coletivo para afugentar os bandidos.

— A recomendação é que, ao ver um crime, o apito seja acionado e que todos ao redor façam o mesmo, assustando o bandido — diz Steffani.

Em outros países, como Estados Unidos, o papel da comunidade no auxílio à segurança pública, é bom exemplo. Conforme a professora da UFRGS e integrante do grupo de pesquisa Violência e Cidadania Letícia Schabbach, o interesse pela área é dever de todos:

— É preciso cuidar para não haver preconceito nem pensar que irão substituir o trabalho da polícia. É interessante que a população seja proativa e auxilie o trabalho policial, afinal, segurança não é responsabilidade apenas do governo. A sociedade precisa dar a sua contribuição.

Para Charles Kieling, professor de Tecnologia em Segurança e Gestão Pública da Feevale, o uso da ferramenta é questionável.

— São eles que decidem o que é perigoso ou não, sem embasamento.

A análise precisa ser mais apurada — analisa.

Mapa de calor da violência

Criador e criatura: Steffani e os pontos marcados no bairro de locais em que crimes aconteceramFoto: André Ávila / Agencia RBS

Com os relatos que chegam ao celular, Steffani criou um "mapa de calor" da violência. Colado num isopor, o desenho do bairro recebe alfinetes nas cores preta, que identificam 128 roubos de veículos registrados por ele, em 2016, e amarela, referentes ao mesmo crime em 2017. A intenção é saber quais são as áreas mais vulneráveis para focar ações nesses pontos.

— O Jardim Algarve fica próximo da RS-118, da Protásio Alves (na Capital), da Estrada Caminho do Meio, o que facilita a fuga — explica o delegado Luis Carlos Rollsing.

Quanto à resolução dos casos, é sucinto:

— Não vou dizer que está tudo certo, falta efetivo. Temos de fechar a DP para fazer diligências. E a gente atua nos crimes graves.

Tratado como prioridade pela BM, o Jardim Algarve fica próximo ao que os moradores chamam de tríplice fronteira, área limítrofe entre Porto Alegre, Viamão e Alvorada. E isso, para capitão Juliano Araújo, comandante da companhia de Policiamento, é um dos fatores que contribuem para a criminalidade.

— Temos feito diversas ações de policiamento ostensivo, como barreiras nas entradas e saídas — argumentou.


sexta-feira, 17 de março de 2017

PRINCÍPIOS DO POLICIAMENTO OSTENSIVO




POLICIAMENTO OSTENSIVO GERAL...

I. CONCEITOS:

1. SEGURANÇA PÚBLICA – é a garantia que o Estado proporciona à nação, a fim de assegurar a Ordem Pública, contra violações de toda espécie, que não contenham conotação ideológica.

Bengochea - "No Estado Democrático de Direito, a Segurança Pública deve ser tratado como um direito de todos, dever dos poderes de Estado e responsabilidade de um Sistema de Justiça Criminal amparado em lei e justiça fortes. Nos regimes totalitários, a segurança pública se torna um instrumento político de controle e policialesco para garantir a segurança do Governo.

2. ORDEM PÚBLICA - conjunto de regras formais , coativas, que emanam do ordenamento jurídico da Nação, tendo por escopo regular as relações sociais em todos os níveis e estabelece um clima de convivência harmoniosa e pacífica. Constituindo, assim uma situação ou condição que conduz ao bem comum.

3. MANUTENÇÃO DA ORDEM PÚBLICA é o exercício dinâmico do poder de polícia, no campo da segurança pública, manifestado por atuações predominantemente ostensiva, visando a prevenir e/ou coibir eventos que alterem a Ordem Pública – delitos – e a dissuadir e/ou reprimir os eventos que violem essa Ordem para garantir sua normalidade.

4. POLICIAMENTO OSTENSIVO é a atividade de Manutenção da Ordem Pública executado com exclusividade pela Polícia Militar, observando características, princípios e variáveis próprias, visando a tranqüilidade pública.

5. TRANQUILIDADE PÚBLICA é o estágio em que a comunidade se encontra num clima de convivência harmoniosa e pacífica, representando assim uma situação de bem-estar social.

6. DEFESA PÚBLICA é o conjunto de medidas adotadas para superar antagonismo ou pressões, sem conotação ideológicas, que se manifestem ou produzam efeitos no âmbito interno do País, de forma a evitar, impedir ou eliminar a prática de atos aque perturbem a Ordem Pública.

7. TÁTICA POLICIAL MILITAR
é a arte de empregar a tropa em ações e operações policiais militares.

8. TÉCNICA POLICIAL MILITAR é o conjunto de métodos e procedimento usados para a execução eficiente das atividades policiais-militares.

9. ÁREA é o espaço físico atribuído à responsabilidade de um Batalhão de Polícia Militar (BPM) ou Regimento de Polícia Montada (RP Mon).

10. SUB-ÁREA é o espaço físico atribuído à responsabilidade de uma Copmpanhia PM (Cia PM) ou Esquadrão de Polícia Montada (esqd P Mon).

11. SETOR é o espaço físico atribuído à responsabilidade de um Pelotão PM (Pel PM).

12. SUBSETOR é o espaço físico atribuído à responsabilidade de um Grupo PM (GPM).

13. POSTO é o espaço físico, delimitado, atribuído à responsabilidade de fração elementar ou constituída, atuando em permanencia e/ou patrulhamento.

14. ITINERÁRIO
é o trajeto, que interliga Pontos-base no posto, percorido obrigatoriamente pela fração.

15. LOCAL DE RISCO
é todo local que, por suas características, apresentam grande probabilidade de ocorrência policial-militar.

16. OCORRÊNCIA POLICIAL-MILITAR é todo fato que exige intervenção policial-militar, por intermédio de ações ou operações.

17. AÇÃO POLICIAL-MILITAR é o desempenho isolado de fração elementar ou constituída com autonomia para cumprir missões rotineiras.

18. OPERAÇÃO POLICIAL-MILITAR
é o conjunto de ações, executasda por fração de tropa constituída, que exige planejamento específico.

19. FRAÇÃO ELEMENTAR fração de tropa, de até três policiais-militares (PM), que não constitua Grupo Policial-Militar (GPM), para emprego coordenado.

20. FRAÇÃO CONSTITUÍDA é a tropa com efetivo mínimo de 1 GPM



II. CARACTERÍSTICAS E PRINCÍPIOS DAS ATIVIDADES POLICIAIS-MILITARES

CARACTERÍSTICAS são aspectos gerais que revestem a atividade policial-militar, identificam o campo de atuação e as razões de seu desencadeamento.

- PRINCÍPIOS
são preceitos essenciais considerados no planejamento e na execução, visando à eficiência operacional.

A. CARACTERÍSTICAS

1. Identificação - O Policiamento Ostensivo é uma atividade policial, exclusiva da Polícia Militar, que, como o próprio nome indica, é visível, marcado por uniformes, símbolos, veículos caracterizados e desenvolve táticas que propiciem a maior visibilidade possível e a demonstração de força.

2. Ação Pública -
O Policiamento Ostensivo é exercido visando preservar o interesse geral da Segurança Pública nas comunidades, resguardando o bem comum em sua maior amplitude. Não se confunde com zeladoria, atividade de vigilância particular de bens ou áreas privadas e públicas, nem com a segurança pessoal de indivíduos sob ameaça. A atuação eventual nessas duas situações ocorre por conta das excepcionalidades e não como regra de observância imperativa. 

3. Totalidade
- O Policiamento Ostensivo é uma atividade essencialmente dinâmica, que tem origem na necessidade comum de segurança da comunidade, permitindo-lhe viver em tranqüilidade pública. Esta atividade é desenvolvida sob os aspectos preventivo e repressivo, consoante seus elementos motivadores, assim considerados os atos que perturbam a Ordem Pública. Consolida-se por uma sucessão de iniciativas de planejamento e execução, ou em razão de clamor público. Deve fazer frente a toda e qualquer ocorrência, quer por iniciativa própria, quer por solicitação, quer em razão de determinação. Havendo envolvido (pessoas, objetos), quando couber, serão encaminhados aos órgãos competentes, ou estes cientificados para providências, se não implicar em prejuízo para o desenlace do atendimento. 

4. Dinâmica - O desempenho do sistema de Policiamento Ostensivo far-se-á, com prioridade, no cumprimento e no aperfeiçoamento dos planos de rotina, com o fim de manter continuado e íntimo engajamento do policial com sua circunscrição, para obter o conhecimento detalhado do espaço geográfico e dos hábitos da comunidade, a fim de melhor servi-la. O esforço é feito para manutenção dos efetivos e dos meios na execução daqueles planos – que conterão rol de prioridades – pela presença continuada, objetivando criar e manter, na comunidade, a sensação de segurança que resulta na tranqüilidade pública, objetivo final da preservação da Ordem Pública. As operações policiais-militares, destinadas a suprir exigências não atendidas pelo policiamento existente em determinados locais, poderão ser executadas esporadicamente, em caráter supletivo, através da saturação – concentração maciça de pessoal e material – para fazer frente à inquietante situação temporária sem prejuízo para o plano de policiamento.

5. Legalidade - 
Todas as atividades da Polícia Militar devem ser desenvolvidas dentro dos limites que a lei estabelece. A ação policial para ser legítima deve estar fundamentada no Poder de Polícia, que é discricionário, mas não é arbitrário. Seus parâmetros são a própria lei.
6. Ação de Presença É a manifestação que dá à comunidade a sensação de segurança, pela certeza de cobertura policial. Ação de presença real consiste na presença física do Policial Militar nos locais onde a probabilidade de ocorrência seja grande. Ação de presença potencial é a capacidade da força policial, num espaço de tempo mínimo, acorrer ao local onde o ilícito seja iminente ou já tenha ocorrido.



PRINCÍPIOS


1. Universalidade - O Policiamento Ostensivo se desenvolve para a preservação da Ordem Pública, tomada no seu sentido amplo. A natural, e às vezes imposta, tendência à especialização não constitui óbice à preparação do Policial Militar, capaz de dar tratamento adequado aos diversos tipos de ocorrências. Aos policiais militares, especialmente preparados para determinado tipo de policiamento, caberá a adoção de medidas, ainda que as preliminares, em qualquer ocorrência policial.

2. Responsabilidade Territorial - Todo e qualquer Policial Militar em atividade fim – na execução do Policiamento Ostensivo – é responsável pela segurança na área geográfica sob sua jurisdição. Para tanto, compete-lhe a iniciativa de todas as providências legais e regulamentares, que visem a garantia da Ordem Pública.

3. Continuidade - O Policiamento Ostensivo é atividade imprescindível, de caráter absolutamente operacional, e será exercido diuturnamente. A satisfação das necessidades de segurança da comunidade compreende um nível tal de exigências, que deve encontrar resposta na estrutura organizacional, nas rotinas de serviço e na mentalidade do Policial Militar.

4. Aplicação -
O Policiamento Ostensivo, por ser uma atividade facilmente identificada pela farda, exige atenção e atuação ativas de seus executores, de forma a proporcionar o desestímulo ao cometimento de atos anti-sociais, pela atuação preventiva e repressiva. A omissão, o desinteresse e a apatia são fatores geradores de descrédito e desconfiança por parte da comunidade e revelam falta de preparo individual e de espírito de corpo.

5. Isenção
 - No exercício profissional, o Policial Militar, através de preparo psicológico, deve procurar atuar sem demonstrar emoções ou concepções pessoais. Não deverá haver preconceito quanto à profissão, nível social, raça, condição econômica ou posição política das partes envolvidas. Ao Policial Militar cabe observar atentamente o que diz a Constituição Federal de l988, no Art. 5o e seus incisos, que trata dos direitos e deveres individuais e coletivos do cidadão, lembrando que “todos são iguais perante a lei”. Para tanto, resta ao Policial Militar agir com imparcialidade e impessoalidade.

6. Emprego lógico - A disposição de meios, para execução do policiamento ostensivo, deve ser o resultado de julgamento criterioso das necessidade, escalonadas em prioridade de atendimento, da dosagem do efetivo e do material, compreendendo o uso racional do que estiver disponível, bem como de um conceito de operação bem claro e definido, consolidado em esquemas exequíveis.

7. Antecipação
- A fim de ser estabelecido e alcançado o espírito predominantemente preventivo do Policiamento Ostensivo, a iniciativa de providências estratégicas, táticas e técnicas, destina-se a minimizar a surpresa, caracterizar um clima de segurança na comunidade e fazer frente ao fenômeno de evolução da criminalidade, com maior eficiência.

8. PROFUNDIDADE - A cobertura de locais de risco não ocupados e/ou o reforço a pessoal empenhado devem ser efetivados ordenadamente seja pelo judicioso emprego da reserva, seja pelo remanejamento dos recursos imediatos, ou mesmo, se necessário, pelo progressivo e crescente apoio, que assegure o pleno exercício da atividade. A supervisão (fiscalização e controle) e a coordenação, realizada por oficiais e graduados,q também integram este princípio. A medida que corrigem distorções e elevam o moram do executante.

9. UNIDADE DE COMANDO - Em eventos específicos, que exijam emprego de diferentes frações, a missão é melhor cumprida quando se designa um só comandante para a operação, o que possibilita a unidade de esforço, pela aplicação coordenada de todos os meios.



III. VARIÁVEIS


São critérios que identificam os aspectos do policiamento ostensivo. São eles: tipos, processos, modalidades, circunstâncias, lugar, efetivo, forma, duração, suplementação, desempenho.


a) TIPO 

São qualificadores das ações e operações de Policiamento Ostensivo.

- POLICIAMENTO OSTENSIVO GERAL
– tipo de policiamento ostensivo que visa a satisfazer as necessidades basilares de segurança, inerentes a qualquer comunidade ou a qualquer cidadão.

- POLICIAMENTO DE TRÂNSITO
- tipo de policiamento ostensivo executado em vias urbanas abertas à livre circulação, visando a disciplinar o público no cumprimento e respeito às regras e normas de trânsito, estabelecidas por órgãos competente, de acordo com o Código Nacional de Trânsito e legislação pertinente.

- POLICIAMENTO RODOVIÁRIO – tipo específico de policiamento ostensivo executado em rodovias estaduais e, mediante convênio, em rodovias federais, visando a disciplinar o público no cumprimento e respeito às regras e normas de trânxito, estabelecidas por órgão competente, de acordo com o Código Nacional de Trânsito e legislação pertinente.

- POLICIAMENTO FLORESTAL E DE MANANCIAIS - tipo de policiamento ostensivo que visa a preservar a fauna, os recursos florestais, as extensões d’água e mananciais, contra a caça e a pesca ilegal, a derrubada indevida ou a poluição. Deve ser realizada em cooperação com órgão federais ou estaduais, mediante convenio.

- POLICIAMENTO DE GUARDA - tipo de policiamento ostensivo que visa à guarda de aquartelamentos, à segurança externa de estabelecimentos penais e das sedes dos poderes estaduais.


b) PROCESSO

São maneiras pelas quais utilizam-se os meios de locomoção. Podem ser:

a. A pé;
b. Motorizado;
c. Montado;
d. Aéreo;
e. Em embarcações;
f. Em bicicletas.

c) MODALIDADES

São modos peculiares de execução do Policiamento Ostensivo:

- PATRULHAMENTO - é a atividade móvel de observação, fiscalização, reconhecimento, proteção ou mesmo emprego de força, desempenhada pelo PM nos postos.

- PERMANÊNCIA - é a atividade predominantemente estática de observação, fiscalização, reconhecimento, proteção ou mesmo emprego de força ou custódia, desempenhada pelo PM nos postos.

- DILIGÊNCIA - é a atividade que compreende busca de pessoas, animais ou coisas, captura de pessoas, ou animais, apreensão de animais ou coisas, resgate de vítimas.

- ESCOLTA
-  é a atividade destinada à custódia de pessoas ou bens, em deslocamento.


d) CIRCUNSTÂNCIAS

São condições que dizem respeito à freqüência com que se torna exigido o policiamento ostensivo:

- ORDINÁRIO - é o emprego rotineiro de meios operacionais em obediência a um plano sistemático, que contém a escala de prioridades.

- EXTRAORDINÁRIO
- é o emprego eventual de meios operacionais , face a acontecimentos imprevisto, que exige manobra de recursos.

- ESPECIAL - é o emprego temporário de meios operacionais, em eventos previsíveis que exijam esforço específico.


e) LUGAR 

É o espaço físico que se emprega o policiamento ostensivo.

- URBANO - é o policiamento executado nas ares de edificações intensiva dos municípios.

- RURAL - é o policiamento executado em ares que se caracterizam pela ocupação extensiva, fora dos limites urbanizados dos municípios.

f) EFETIVO 

É uma fração empenhada em uma ação ou operação.

a. Fração elementar
- 1 PM
- 2 PM
- 3 PM

b. Fração constituída
- GPM
- PEL PM
- CIA PM – Esqd PM
- BPM – RPMon PM


g) FORMA 

É a disposição da tropa no terreno, com atribuições e responsabilidades, para execução do Policiamento Ostensivo.

- DESDOBRAMENTO
– constitui a distribuição das unidades Operacionais (UOP) no terreno, devidamente articuladas até o nível GPM, como limites de responsabilidades perfeitamente definidos

- ESCALONAMENTO
- é o grau de responsabilidade dos sucessivos e distintos níveis da cadeia de comando, no seu espaço físico.


h) DURAÇÃO 

É o tempo de empenho diário do PM no Policiamento Ostensivo

- JORNADA - é o período de tempo, nas 24 horas do dia, em que o PM desenvolve a atividade policial-militar.

- TURNO
- é a jornada com um período de tempo previamente determinado.


i) SUPLEMENTAÇÃO

São recursos adicionais que aumentam a capacidade operacional em ações ou operaões rotineiras e/ou específicas.

a. Cão
b. Rádio transceptor
c. Armamento e equipamento peculiares
d. outros

j) DESEMPENHO 

É a particularização do emprego do PM para cumprimento de atividade-fim no policiamento ostensivo

- ATIVIDADE DE LINHA - é o emprego diretamente relacionado com o público.

- ATIVIDADE AUXILIAR - é o emprego em apoio imediato ao PM em atividade de linha. Não deve ser confundida com o apoio mediato, próprio da atividade meio.


PROCEDIMENTOS BÁSICOS

São comportamentos padronizados que proporcionam as condições básicas para o pleno exercício das funções policiais-militares e, por isso, refletem o nível de qualificação profissional do homem e da Corporação. Compreendem os requisitos básicos, as formas de empenho em ocorrências, os fundamentos legais e as técnicas mais usuais.



REQUISITOS BÁSICOS

a) Conhecimentos da missão
– o desempenho das funções de policiamento ostensivo impõe, com o condição essencial para eficiência operacional, o completo conhecimento da missão, que tem origem no prévio preparo técnico-profissional, decorre da qualificação gera e específica e se completa com o interesse do individuo.

b) Conhecimento do local de atuação
– compreende o conhecimento dos aspectos físicos do terreno, de interesse policial-militar, assegurando a familiarização indispensável ao melhor desempenho operacional.

c) Relacionamento – compreende o estabelecimento de contatos com os integrantes da comunidade, proporcionando a familiarização com seus hábitos, costumes e rotinas, de forma a assegurar o desejável nível de controle policial-militar, para detectar e eliminar as situações de risco, que alterem ou possam alterar o ambiente de tranqüilidade pública.

d) Postura e compostura
– a atitude, compondo a apresentação pessoal, bem como, a correção de maneiras no encaminhamento de qualquer ocorrência influem decisivamente no grau de confiabilidade do público em relação à corporação e mantém elevado o grau de autoridade do PM, facilitando-lhe o desempenho operacional.

e) Comportamento na ocorrência – o caráter impessoal e imparcial da ação policial-militar revela a natureza eminentemente profissional da atuação, em qualquer ocorrência, e requer que seja revestida de urbanidade, energia serena, brevidade compatível e, sobretudo, isenção.


fonte:http://ctsp.blogspot.com.br/2006/12/apostilha-de-policiamento-ostensivo.html 

segunda-feira, 12 de setembro de 2016

RELAÇÃO DE CONFIANÇA COM A POPULAÇÃO

COMENTÁRIO DO BENGOCHEA - RELAÇÃO DE CONFIANÇA COM A POPULAÇÃO É O MAIS IMPORTANTE PILAR DA ESTRATÉGIA DO POLICIAMENTO COMUNITÁRIO. Só que esta relação não se firma apenas com as vontades política e policial, pois se as leis, a justiça e a execução penal não garantirem continuidade às ações policiais e punição para conter o crime e isolar os criminosos, a polícia fica desacreditada e a relação de confiança dada no início se perde.



REVISTA ÉPOCA 11/09/2016 - 16h57

Neil Jarman: “É preciso ter vontade política para reformar a polícia"

O especialista afirma que a instituição precisa dar o primeiro passo rumo ao diálogo para estabelecer uma relação de confiança com a população


TERESA PEROSA





Neil Jarman, do Instituto de Pesquisa em Conflito do Reino Unido (Foto: Divulgação)


Quando o sangrento conflito na Irlanda do Norte chegou a um fim oficial com o tratado de paz em 1998, ficou determinado que a polícia do país, contaminada pela cultura de combate nas ruas, passaria por uma reforma. O pesquisador britânico Neil Jarman foi um dos envolvidos diretamente nas novas políticas postas em prática. Ele é diretor do Instituto de Pesquisa em Conflito (ICR, em sua sigla em inglês) e também trabalha para a Organização de Segurança e Cooperação na Europa (OSCE), no conselho que, dentre outras funções, orienta e monitora reformas policiais no continente. Nos últimos dois anos, a entidade desenvolveu um programa de treinamento direcionado às formas de policiamento de manifestações. Em entrevista a ÉPOCA, Jarman fala sobre a experiência da reforma da polícia irlandesa e explica por que o diálogo é essencial para que as relações entre polícia e a população de um país sejam positivas.

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ÉPOCA – O Reino Unido geralmente é citado como um exemplo para o resto mundo em termos de policiamento comunitário e relações entre a polícia e sociedade civil. Como esse modelo foi construído?
Jarman – O Reino Unido tem muitas forças policiais, são cerca de 43. Dependendo de onde elas estão, a abordagem é diferente. Por exemplo, na Irlanda do Norte, por causa do conflito (entre legalistas pró-Reino Unido e republicanos pró-unificação da Irlanda), a polícia estava profundamente envolvida e profundamente militarizada, uma vez que estava na linha de frente. Era uma polícia muito combativa e muito diferente das outras forças policiais britânicas. O processo de paz de 1998 incluiu um grande programa de reforma que foi posto em prática a partir de 2001. Até então, muitas das manifestações terminavam em confronto, havia violência e tumulto. As pessoas usavam desde pedras até coquetéis molotov e a polícia usava munição plástica em resposta. Se pensarmos nos 15 anos desde que o processo de reforma se iniciou, o uso de força da polícia foi limitado e a abordagem que ela tem adotado quando lida com multidões e manifestações é vista como a forma mais avançada de policiamento, mesmo dentro do Reino Unido. Temos um uso de força muito limitado. Nenhuma polícia no Reino Unido usa gás lacrimogêneo. Na Irlanda do Norte, usam canhões de água e algumas formas de munição plástica, mas um tipo refinado de munição que é ainda menos impactante do que a maioria delas. E esses recursos são usados de forma relativamente rara. A polícia muito raramente buscaria de maneira ativa dispersar uma manifestação desde que ela se mantenha pacífica. Mesmo que seja incômoda e até tumultuosa, a polícia tende a adotar a abordagem de que a melhor forma de dispersão é dar tempo para que ocorra naturalmente, que as pessoas dispersem sozinhas. Hoje se entende que qualquer forma de intervenção física frequentemente levará a uma escalada (de violência) e em geral terminar com as pessoas revidando ou em vandalismo. Isso foi feito durante um período razoável de anos, então as pessoas sabem o que esperar da polícia - e a polícia, em geral, sabe o que esperar dos manifestantes. Isso não significa que violência não ocorra, mas a polícia tende a adotar uma abordagem mais defensiva para essa violência, em vez de um contra-ataque agressivo.

ÉPOCA – A justificativa para a ação da polícia é que indivíduos ou grupos da manifestação começam com atos de violência e vandalismo. Como é possível combater e evitar esses atos de violência sem punir a grande maioria dos manifestantes que, em geral, é pacífica?
Jarman – Essa é a questão chave e é um desafio. Frequentemente é levantada a questão de quem teria começado a violência. Algumas vezes são pessoas que estão na multidão, algumas vezes é a polícia que decide dispersar um ato e então as pessoas reagem à polícia. A polícia precisa ter o cuidado de não provocar. Infelizmente, houve muitas vezes em que a polícia decidiu que reganharia o controle das ruas e isso leva a uma escalada de violência. Esse é um dos problemas que existem com elementos como o gás lacrimogêneo, que atinge a todos, mesmo aqueles que não são parte da manifestação. Na Irlanda do Norte, as duas principais formas de uso da força que eles têm são alguns tipos de munição plástica, particularmente precisas, e canhões d'água, como uma arma menos letal. O que eles não costumam fazer é se tornar mais agressivos e tentar agarrar e prender pessoas. Eles usam ferramentas de vigilância para identificar pessoas e tendem a não interferir em atos de vandalismo, por exemplo. Recolhem evidências posteriormente (para investigação). A polícia tende a manter uma distância da multidão e tem equipamento de proteção para caso as pessoas comecem a jogar pedras. Adota uma posição defensiva e permite que as pessoas eventualmente cometam atos vistos como ataque, mas dá tempo para que manifestantes que estejam presentes - e se oponham a atos de violência - tentem acalmar as coisas também.

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ÉPOCA – Como esse diálogo é feito?
Jarman – O que a polícia tenta fazer é se reunir com os organizadores antes. Nós desenvolvemos uma política que se chama "sem surpresas" e isso significa basicamente que a polícia vai dizer os organizadores, em linhas gerais, qual será sua abordagem e tática a ser adotada. A conversa é: “vocês poderão se manifestar aqui, e contanto que vocês se mantenham pacíficos, isso é o que nós faremos. Caso se torne violento, essa é a resposta que usaremos, mas pode-se esperar um esforço muito grande para tentar acalmar a situação.” Em alguns casos, os organizadores e a polícia terão os celulares uns dos outros, para que possam manter o contato de maneira regular. E, caso algo aconteça, temos uma instância independente de prestação de contas formada por departamentos de polícia e pela sociedade civil que monitora o policiamento. Em casos de manifestações, esse órgão tem um consultor de direitos humanos que irá e observará o que a polícia está fazendo do centro de comando. Os três pilares do processo de reforma da polícia na Irlanda do Norte que são chave para uma boa prática policial são (o desenvolvimento) de uma abordagem baseada em direitos humanos, a prestação de contas da polícia ao público e o trabalho junto à comunidade. Há padrões muito altos de direitos humanos que a polícia deve cumprir. Toda vez que a polícia faz uso de qualquer tipo de força, seja munição plástica, canhão de água ou cassetete, é automaticamente aberta uma averiguação para investigar se o uso foi justificado ou não. E isso ajuda a manter um nível de credibilidade entre polícia e a população.

ÉPOCA – Como é possível começar a construir esse tipo de relação em um ambiente de hostilidade mútua?
Jarman – De partida, é preciso mudar a polícia. Eles são a parte com poder nessa situação. É preciso ter vontade política para reformar a polícia e esse processo precisa estar baseado em direitos humanos, prestação de contas e trabalho com a comunidade. É preciso começar o processo de alguma maneira. Não muda do dia para a noite. É preciso evidenciar que a polícia está adotando um posicionamento diferente. Começa-se a investir em diálogo, reduzir seu uso de força e explicar que é isso que se está fazendo. Explicar que você reconhece que essas pessoas tem o direito a se manifestar e, desde que suas manifestações se mantenham pacíficas, você permitirá que elas sigam; que em determinadas situações, exercerá seu direito de uso da força, mas que buscará reduzir esse uso; que permitirá que os manifestantes protestem, mesmo que essas manifestações sejam impopulares entre alguns setores da comunidade política. É frequente a situação em que a polícia é vista como alinhada a um determinado setor da estrutura política. Aqui foi muito importante que a polícia fosse vista como equilibrada e não alinhada com um grupo político ou outro. Agora, a polícia frequentemente dirá que se os dois lados estiverem reclamando sobre a maneira como lidamos com uma situação, então ela está fazendo o correto. A polícia pode tomar iniciativa e pode decidir mudar. É preciso iniciar um amplo debate público e o desafio para a polícia muitas vezes é reconhecer que suas ações serviram para escalar a situação.

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ÉPOCA – Em 2011, Londres sofreu com uma série protestos violentos. A polícia foi criticada por setores políticos, que consideraram a ação muito branda na ocasião. O ex-prefeito e atual ministro das Relações Exteriores, Boris Johnson, comprou três caminhões de canhões de água, mas seu uso não foi autorizado. O novo prefeito, Sadiq Khan, vai vender o equipamento. Qual é sua leitura de sua situação?
Jarman – A situação em Londres em 2011 foi particular, porque muito da violência não estava associada a manifestações políticas, mas foi alimentada por sentimentos de marginalização, alienação e de desavença com a polícia, talvez algo parecido com o que vemos em favelas no Brasil. O gatilho para os riots na ocasião foi a morte de um jovem negro pela polícia. Houve uma manifestação feita pela família à frente de uma delegacia e a polícia se recusou a engajar em qualquer forma de diálogo: a polícia falhou ao não sair e conversar com as pessoas. Depois de muitas horas, algumas pessoas ficaram raiva e começaram a cometer atos de vandalismo, destruir carros de polícia e outros veículos. Se a polícia de partida tivesse sido mais eficaz em conversar com pessoas, em engajar em um diálogo com a população, sobre o que tinha acontecido, isso teria impedido que toda a confusão acontecesse. Diálogo não custa nada. Muitas pessoas pensam que diálogo é um problema, que existem pessoas com as quais não se deve conversar. Mas a disposição em falar com as pessoas é frequentemente a coisa mais fundamental que precisa existir. Se a polícia ouvir o que as pessoas acham problemático em sua ação em manifestações, ela pode começar a pensar em como chegar a um acordo. No processo de reforma da polícia da Irlanda do Norte houve um número muito grande de consultas públicas, muitas oportunidades para a população dizer como se sentia em relação à polícia e como achava que ela poderia mudar. E também ouvimos da polícia o que ela achava de toda a situação. Para as pessoas respeitarem a polícia, a polícia precisa respeitar a população. E porque ela está numa posição de poder nessa situação, é a polícia que tem que dar o primeiro passo.

ÉPOCA – Qual deve ser a conduta geral de uma polícia quando lida com protestos?
Jarman – A polícia precisa ser bem treinada e bem disciplinada, mas também precisa estar bem equipada e protegida para se comportar da maneira apropriada. A questão é que nessas situações você tem dois grupos de homens jovens frente a frente, um deles são os manifestantes, o outro são os policiais. A maioria dos policiais na linha de frente são homens entre 20 e 40 anos, o mesmo grupo demográfico de quem está nas manifestações. Há muita testoterona circulando. Não é uma questão de confronto, de quem tem a maior arma, você precisa reconhecer que a polícia não é tão diferente dos manifestantes. Os policiais precisam de bons líderes, bom treinamento, conhecimento de como operar e como entender esses tipos de situação e ter equipamento que os permita sentir protegidos e seguros enquanto fazem seu trabalho, que é muito difícil. Mais do que armas maiores, nós precisamos lhes dar conhecimento, um melhor entendimento de direitos humanos, da miríade de opções de como eles podem se comportar durante essa situação. Uma das melhores formas que uma força policial pode aprender mais é conversar com outras organizações policiais que executam as coisas de maneira diferente. A polícia frequentemente não gosta de ouvir o que acadêmicos, ONGs, ou jornalistas têm a dizer, mas eles tendem a ouvir outros policiais que estiveram em situações similares e podem dizer: existe outra maneira de fazer isso, funciona e é mais eficaz. Parte do processo de reforma da polícia na Irlanda do Norte foi juntar policiais irlandeses a policiais da África do Sul e da Bélgica, que estavam passando por grandes processos de reestruturação e que tinham problemas na forma como lidavam com multidões e protestos. Nós conseguimos construir um diálogo entre diferentes organizações policiais para que elas pudessem aprender umas com as outras e compartilhar experiências e problemas.

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ÉPOCA – Qual é o primeiro passo para mudar o procedimento e cultura de uma corporação policial?
Jarman – Para qualquer coisa acontecer é preciso vontade política. Se você tem uma situação em que a autoridade política continuamente apoia a polícia, então não há mudança. Não se diminui uma situação de violência usando força. Talvez se consiga uma resposta de curto prazo positiva, mas você só sustenta e aumenta a hostilidade entre as duas partes, o que vai aparecer na próxima vez que algo acontecer. É possível que a estrutura política dê início ao processo, mas não se envolva diretamente. Isso significa ter dinheiro para investir na polícia, porque haverá custos de treinamento e equipamento, mas também envolverá processos de diálogo. E não adianta ter diálogo se as pessoas que estiverem envolvidas nos protestos e que podem estar envolvidas em tumultos não forem incluídas. As pessoas hoje presentes nos órgãos de prestação de contas da polícia são pessoas que no passado seriam membros do Exército Republicano Irlandês (IRA, em sua sigla em inglês), que estariam brigando e matando a polícia. É preciso um processo de diálogo inclusivo.

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quarta-feira, 17 de agosto de 2016

A IMPORTÂNCIA DO DIAGNÓSTICO (DA ANAMNESE)





JORGE BENGOCHEA


De nada adianta ter inteligência e armamento, se não conhecer e tratar as mazelas e os pontos fortes e pontos fracos do sistema público que deve preservar a ordem pública e garantir o respeito às leis e os direitos de todos à justiça e segurança pública. De nada adianta ter capacidade de inteligência e armamento, se não conhecer os porquês deste cenário de violência e criminalidade que vem aterrorizando o povo brasileiro e fazendo as polícias enxugarem gelo. De nada adianta ter um setor de inteligência capacitado e ter a força das armas se não conhecer o mundo do crime fortalecido pelo tráfico de armas de guerra e drogas que passam pelas fronteiras porosas e sem policiamento permanente, por soldados aliciados na dependência de drogas e nos presídios dominados pelas facções e na certeza da impunidade lavrada na máxima de que “pode fazer que não dá nada e se der é pouco”. 

Deve-se observar o que ocorre na saúde, em que o médico antes de começar qualquer tratamento, faz uma anamnese para conhecer a história do paciente, suas queixas e o relato do que está sentindo; depois manda fazer vários exames para detectar a possível doença; recebidos os exames vai analisar as possíveis doenças que orientarão o diagnóstico diferencial e a requisição de exames complementares; e só depois é que vai prescrever a medicação e o tratamento; ainda irá fazer o acompanhamento com o retorno do paciente ao consultório para verificar se o tratamento deu certo ou terá que prescrever outro tipo de tratamento, ou encaminhar para outros profissionais ou prescrições específicas.

Por isto é importante primeiro reunir num gabinete os comandantes das unidades competentes para buscar uma harmonia e integração de esforços para realizar o diagnóstico (a anamnese dos médicos) e então tomar as providências cabíveis’. Pois se não conhecer a si mesmo, nem ao cenário de criminalidade e violência, e tampouco ao potencial do crime que deve prevenir e coibir para garantir a ordem pública, a segurança pública e a tranquilidade pública, a força policial não será capaz de vencer o crime.

sábado, 9 de julho de 2016

BRIGADA LANÇA BASES MÓVEIS COMUNITÁRIAS



Brigada Militar lança nova ofensiva contra a criminalidade na Região Metropolitana. Projeto de Bases Móveis Comunitárias visa a ampliar o policiamento em áreas conflagradas de Porto Alegre, Canoas e Novo Hamburgo

Por: José Luís Costa
ZERO HORA 07/07/2016 - 11h39min



A Brigada Militar apresentou na manhã desta quinta-feira um nova ofensiva para tentar combater a criminalidade na Região Metropolitana. Batizada de Bases Móveis Comunitárias, a iniciativa consiste em ampliar o policiamento com a presença de ônibus em áreas conflagradas de Porto Alegre, Canoas e Novo Hamburgo para aproximar o policiamento da população. São quatro bases com 10 policiais em cada uma delas, que terão à disposição uma viatura, podendo ser agregada mais uma motocicleta ou bicicleta.

Na Capital, serão duas bases, nos bairros Rubem Berta e Santa Tereza, regiões que figuram no topo do ranking das regiões mais violentas da cidade. O Rubem Berta registrou cerca de cem homicídios em 2015, conforme o subcomandante-geral da BM, coronel Andreis Silvio Dal Lago, e o Santa Tereza, em torno de 60 assassinatos.


A presença mais acentuada da BM no Santa Tereza visa a diminuir focos de tensão por conta da ação de traficantes. Após um jovem ser ferido em confronto com PMs, dois ônibus e um lotação foram incendiados em setembro passado. Dias depois, disputas entre gangues resultou na queima de outro ônibus ao lado do posto de saúde da Vila Cruzeiro. A unidade precisou ser fechada por falta de segurança. Em Canoas, a base móvel estará no bairro Mathias Velho, e, em Novo Hamburgo, no bairro Santo Afonso.


Adquiridos nos últimos dois anos, os ônibus funcionarão como referência para atendimento e orientação à comunidade. São equipados com computadores que permitem aos PMs registrar ocorrências de delitos sem gravidade e acesso ao sistem de informação Consultas Integradas, que permite pesquisar dados sobre pessoas, veículos e armas. Também há câmeras acopladas aos veículos — ainda sem geração de sinal — cujas imagens serão captadas por telas dentro do próprio ônibus.

O projeto das Bases Móveis Comunitárias lembra, de forma mais tímida, a principal bandeira do governo Tarso Genro (2011 a 2014) na segurança pública, os Territórios da Paz, lançados há cinco anos, no próprio Santa Tereza e Rubem Berta, além dos bairros Restinga Lomba do Pinheiro. A iniciativa sucumbiu porque contava com recursos federais que foram suspensos.

Projeto foi lançado próximo a local de venda de drogas

O lançamento das Bases Móveis Comunitárias ocorreu no Santa Tereza, no cruzamento das ruas Manoel Lobato e Sepé Tiaraju, uma conhecida cracolândia, ponto de reunião diária de usuários de drogas e prostitutas. No local, um ônibus da BM ficará estacionado, durante um turno, por até seis horas.


— Aqui era um ponto de tráfico e de prostituição — enfatizou o tenente-coronel Kleber Goulart, comandante do 1º Batalhão de Polícia Militar, responsável pelo patrulhamento da região.

Os horários e os locais para montar a base móvel serão de acordo com os índices de criminalidade, explicou o subcomandante da BM. Ele lembrou que a iniciativa foi viabilizada a partir de liberação de mais recursos para a segurança pública, como pagamento de horas extras, anunciado na semana passada.

Além da Sepé Tiaraju, o ônibus destinado ao Santa Tereza deve se movimentar até a Avenida Orfanotrófio, à noite, em horários próximos a saída de estudantes do Centro Universitário Ritter dos Reis. Aos finais de semana, a base deverá se deslocar para o Belvedere Ruy Ramos, no alto do Morro Santa Tereza.

Presente ao evento, o governador José Ivo Sartori, destacou a importância da iniciativa:

— Esse é um trabalho diferenciado. As necessidades são muitas, e com a compreensão de todos, faremos o policiamento comunitário preventivo, oferecendo mais segurança.

Instantes depois de falar a jornalistas, Sartori foi abordado por um morador. O microempresário Márcio Dias, 43 anos, reclamou da insegurança, da presença de usuários de crack e da prostituição no bairro:

— A gente tem um apartamento e estou tentando negociar para me mudar, só que é o dia inteiro prostituição na avenida. Tenho parentes que moram aqui, mas têm medo de ir para a parada do ônibus porque podem ser assaltadas ou taxadas de craqueiro ou outras coisas.

Sartori respondeu:

— É por isso que estamos aqui com a BM, para ajudar. Pouco depois, surgiu a primeira ocorrência em um beco nas imediações da Avenida Moab Caldas, onde um homem armado assustava moradores. PMs foram ao local e capturaram em flagrante um jovem de 19 anos que portava uma espingarda calibre 12. Segundo os policiais, ele tem antecedentes por tráfico e porte ilegal de arma.


COMENTÁRIO DO BENGOCHEA
- Por ser itinerante, a base móvel contraria princípios da estratégia de policiamento comunitário: a continuidade, a permanência e o comprometimento com o local de trabalho. Deveria ser empregada como suporte aos policiais comunitários instalados de forma permanente nas comunidades.