O Policiamento Comunitário ou de Proximidade é um tipo de policiamento que utiliza estratégias de aproximação, ação de presença, permanência, envolvimento e comprometimento com o local de trabalho e com as comunidades na preservação da ordem pública, da vida e do patrimônio das pessoas. A Confiança Mútua é o elo entre cidadão e policial, entre a comunidade e a força policial, entre a população e o Estado. O Comprometimento é a energia.

Esta estratégia de policiamento visa garantir o direito da população à segurança pública, mas, tendo em vista que confiança é essencial, o sucesso depende de policiais preparados, do apoio da sociedade organizada, das comunidades, de leis respeitadas e da interação entre poderes, instituições e órgãos envolvidos num Sistema de Justiça Criminal que exige finalidade pública, observância da supremacia do interesse público, valor à vida das pessoas, comprometimento, objetivo, coatividade, instrumentos de justiça ágeis, execução penal responsável e forças policiais bem formadas, respeitadas, valorizadas, especializadas, atuando no ciclo completo e capacitadas em efetivos para exercer função essencial à justiça na preservação da ordem pública e da incolumidade das pessoas e do patrimônio.

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Território da Paz precisa de "permanência" e "continuidade" para evitar retaliações futuras.


O PERIGO RONDA QUEM AJUDA O ESTADO.

LEIA ESTA NOTÍCIA. PARA DAR CERTO, A ESTRATÉGIA DE POICIAMENTO PRECISA DE PERMANÊNCIA DURADOURA E CONTINUIDADE NO EXECUTIVO E NO JUDICIÁRIO.

Liberdade vigiada: traficantes continuam espionando moradores e fazendo ameaças - 13/08/2009 às 23h46m; Vera Araújo - O Globo

RIO - Os passos da pequena J., de 4 anos, no segundo andar, correndo de um cômodo a outro, como qualquer criança de sua idade, viraram o ingrediente de um crime, na pacata Rua Israel, na Cidade de Deus. Lá, onde as vias têm nomes bíblicos, o vizinho, incomodado com a correria da menina, matou a pauladas o pai dela, o mototaxista Carlos Henrique Pereira Arcanjo, de 26 anos, na madrugada do último dia 11 de julho, a não mais de 200 metros da sede da Unidade de Polícia Pacificadora (UPP). A viúva, Alessandra Santos da Silva, de 26 anos, acredita que, se o tráfico ainda estivesse lá, a punição para o assassinato seria rápida, pois o que vigorava na favela era a regra do "olho por olho, dente por dente".

- Com os traficantes aqui, meu marido estaria caído de um lado e o assassino dele do outro - afirmou ela, inconformada com a demora na prisão do assassino. - Agora, com a polícia, fico esperando por justiça.

O desabafo deixa claro que ainda há moradores que não se adaptaram aos novos tempos e entendem que a "justiça rápida" dos criminosos é solução. Além disso, o tráfico continua com seus olhos sobre a favela.

As facções mantêm mensageiros e olheiros que ficam atentos a qualquer movimento dos moradores. A dona de casa I., de 65 anos, há 43 na Cidade de Deus, já recebeu recados só porque forneceu água e gelo a PMs da UPP. Os espiões avisaram que, caso ela continuasse, o filho seria punido. Ao ser perguntada sobre a ameaça, I. comenta, olhando para os lados:

- Se alguém vem pedir um copo d'água, vou negar? - diz, acrescentando que fazia o mesmo quando o pedido vinha dos bandidos.

No fundo, as duas histórias são os dois lados de uma mesma moeda. Tanto a lei draconiana do tráfico, com seu "tribunal", como a constante vigilância muito se assemelham a mecanismos usados durante a ditadura militar, que também recorria a espiões e intimidava a sociedade. 'O tráfico não acabou'

Na Cidade de Deus, o traficante, o ditador, só deixou aparentemente o front, mas infiltrou dezenas de informantes, uma clara evidência de que a área é um foco de resistência. A situação chegou ao ponto de a Secretaria de Segurança reestruturar o policiamento da região na última segunda-feira, com o reforço de 93 PMs na UPP, totalizando 276 homens. Agora, a maior parte da favela é coberta pela Unidade de Polícia Pacificadora e apenas o Karatê, um dos locais mais pobres e violentos, ainda é vigiado pelo Batalhão de Operações Especiais (Bope). A tropa de elite também causa um desgaste no relacionamento com a comunidade, por usar a área como campo de treinamento.

A comunidade começou, em 11 de novembro, a ser patrulhada pelo 18 BPM (Jacarepaguá), apoiado por outros quartéis. A partir de fevereiro, com a instalação da UPP da Cidade de Deus, a favela passou a ter três tipos de policiamento: o dos recrutas da nova unidade, o dos policiais de Jacarepaguá e o dos "caveiras" (integrantes do Bope).

O tenente-coronel Luigi Gatto, comandante do 18 BPM, reconhece a dificuldade de os moradores se adaptarem às novas regras:

- O tráfico não acabou. A demanda interna e a de consumidores da Barra e de Jacarepaguá movimenta atividade, porém eu diria que conseguimos diminuir para 10%.

Por outro lado, a cena de traficantes carregando fuzis ficou para trás. No lugar de praças repletas de viciados em crack, hoje é possível ver crianças usando o espaço para participar de uma escolinha de futebol, parceria da PM com a Suderj. Policiais militares também dão aulas de ginástica para a terceira idade, numa quadra dentro de uma escola.

Mas não foi nada fácil ganhar a confiança de quem vive na favela. Ao ver a aproximação de polícia e moradores, o tráfico mandou um aviso: "Quem fizer as aulas dos PMs morre".

- Nas aulas, não estamos fardados e, para não expor as senhoras que fazem ginástica, usamos uma quadra fechada - conta a tenente Jean Karla Moreira, uma das subcomandantes da UPP.

Professor de educação física, o soldado Marcus Freitas, de 30 anos, se lembra da vez em que uma das alunas virou o rosto quando o viu fardado:

- Ela fingiu que não me viu, mas depois pediu desculpas. Aqui dentro (na quadra), somos os amigos. Lá fora, nos veem como demônios. É natural. Afinal, são mais de 30 anos convivendo com o tráfico.

Quem vive na localidade do Karatê não ousa desafiar o tráfico. As crianças não frequentam a escolinha da PM: brincam nas ruas de chão batido, em meio ao lixo, descalças. Lá, a comunidade conhece bem o "tribunal" do tráfico e não está disposta a pagar para ver. No passado recente, quem não seguia as regras dos bandidos tinha como um dos destinos servir de comida para jacarés ou porcos. Moradores contam que o chefe do tráfico dava uma "chance" aos que deviam à boca de fumo ou eram X-9 (informantes da polícia), ordenando que nadassem no lodo do canal do Rio Grande.

- Ele acendia o baseado e, quando estava perto de apagar, mandava o infeliz nadar, sem respirar, com o rosto virado para a lama. Antes de o cigarro se apagar, a vítima tinha que chegar o mais longe possível, para fugir do tiro. Como nunca escapava, o corpo ficava para os jacarés- conta um morador.

A cada esquina, há uma mãe chorando por um filho desaparecido. A doméstica R., de 43 anos, teve 12 filhos - quatro desapareceram:

- Só consegui enterrar um deles. E estou perdendo uma filha para as drogas. É a vida que ela escolheu. A única coisa que posso fazer é me sentar, chorar e enterrar o corpo, se achar.

A violência do tráfico foi tema do filme "Cidade de Deus", a partir da rivalidade dos traficantes Zé Pequeno e Mané Galinha. Mas, para alguns moradores, a obra não retratou a realidade da favela, sendo preconceituoso com a comunidade. A mais indignada é Sebastiana Geralda da Silva, a Bá, citada no livro que deu origem ao filme:

- As pessoas me apontavam na rua como dona de um bordel. Foi uma vergonha para mim e meus 11 filhos. Mas eu não troco minha Cidade de Deus por nada neste mundo.

COMENTÁRIO DO BENGOCHEA - Veja a situação que foram colocados moradores e policiais. E se o Estado resolver encerrar esta estratégia, o que ocorrerá com os moradores? Ela não pode ser superficial, paliativa e partidária como têm sido as ações de segurança pública até agora. Deve ter uma continuidade daqui para adiante com maior comprometimento e aproximação do Judiciário nas questões de ordem pública. Caso contrário, haverá retaliações e chacinas quando a polícia se retirar destes locais por falta de efetivos.

Nenhum comentário: