ANCELO.COM - O GLOBO. 12.07.2012. pesquisa
Jorge Antonio Barros
Os policiais militares lotados em Unidades de Polícia Pacificadora
(UPP) se consideram mais bem preparados para atirar do que para fazer
policiamento comunitário, que em tese é a principal atribuição deles.
Eles afirmam ter consciência de que a mediação de conflito entre
moradores é uma missão da UPP (93,8%, o maior índice), mas 79,4% deles
afirmam que a atividade realizada com maior frequência pelos policiais
de UPP é a abordagem e revista de suspeitos, assim como atua a polícia
que não está nas favelas pacificadas. Entre 2010 e este ano, caiu de
63,1% para 49,1% a avaliação daqueles policiais sobre acham que foram
mal treinados para trabalhar adequadamente nesse tipo de serviço -- ou
seja a cada dez, cinco policiais de UPP criticam a própria formação para
o trabalho, recebida da PM. Sobre as condições de trabalho houve
melhora em alguns itens, como as instalações da sede, sanitários e
escalas de trabalho, e piora em outros, como pontualidade na
gratificação e auxílios para transporte e alimentação. Apesar disso,
houve ligeiro aumento no nível de satisfação dos policiais -- de 41% em
2010 para 46% na pesquisa atual. A maioria desses policiais considera
importante continuar portando fuzil (92%), arma que não combina com
policiamento comunitário.
Esses são alguns dos resultados de uma
nova pesquisa sobre o que pensam os policiais de UPP, feita pelo Centro
de Estudos de Segurança e Cidadania (CeSec), com apoio da Fundação Ford e
apoio operacional da Secretaria de Segurança e da PM. A primeira
pesquisa, feita em 2010, abordou apenas nove UPPs e agora mais 12. Na
amostragem foram ouvidos 865 policiais -- 94,8% são soldados e 5,2%
cabos. Existe um total de 24 Unidades de Polícia Pacificadora com cerca
de cinco mil policiais militares.
-- As UPPs não são algo
definitivo e acabado . Estão sujeitas a mudanças e correções de rota. Os
resultados da pesquisa, portanto, não são um retrato estático, mas
buscam justamente captar a evolução desse processo. O sucesso das UPPs
depende particularmente dos policiais ali lotados. Daí a importância de
conhecer suas percepções e avaliações e sobre o próprio trabalho que
realizam -- afirma Julita Lemgruber, diretor do CesEc, e uma das
coordenadoras da pesquisa, assim como as pesquisadoras Bárbara Soares e
Leonarda Musumeci.
A pesquisa deste ano contou com o trabalho de
19 pesquisadores em campo. Foi um trabalho de profundidade que contou
também com a colaboração dos próprios policiais que responderam com a
garantia do anonimato e foram escolhidos por sorteio a partir de lista
enviada pelo comando de suas unidades. Eles se dividem na percepção que
têm dos moradores em relação ao trabalho feito pela UPP -- 46% acham que
a maioria dos moradores tem sentimentos negativos (como medo,
desconfiança ou raiva) e 44% consideram que a população local tem
sentimentos positivos (simpatia, admiração, aceitação), enquanto que
10,3% acham que a indiferença é o sentimento predominante. A percepção
de sentimentos positivos era maior na pesquisa anterior -- 66,5% --
enquanto que a de negativos era menor (28,5%).
Sem esse objetivo, a
pesquisa comprova que o policiamento comunitário ainda não é totalmente
explorado pelas UPPS. A maioria dos policiais diz que realiza com
frequência abordagem e revista de suspeitos e recebe queixas da
população (52,9%). Apenas 37,4% deles afirmam reunir-se frequentemente
com os superiores e só 5% dizem reunir-se com frequência com moradores.
São poucos também os que mantêm contato com instituições da comunidade,
como associações de moradores, igrejas e ONGs, entre outras. Parecem
confirmar o mito de "Tropa de Elite", de que PM detesta ONG.
Na
avaliação da formação, os policiais consideram que agora estão mais bem
preparados para atirar (passou de 52,5% para 64,9%), enquanto que para o
policiamento comunitário caiu a percepção, de 81,5% para 64,2% -- uma
queda de 21%. Para eles, o preparo para a mediação de conflitos entre os
moradores cresceu de 45,8% para 50,1%. No quesito armamento menos
letal, que costuma ser útil no policiamento comunitário, caiu de 37,7%
para 33,6%.
No patrulhamento da área, aumentou a movimentação dos
policiais -- a ronda a pé na comunidade subiu de 29,8% para 37,6% na
resposta da atividade que realizam na maior parte do tempo. Abordagem e
revistas de suspeitos (74,5%) e registro de ocorrências em delegacias
(49,3%) são outras atividades que tomam o tempo dos policiais lotados em
UPPs.
Apenas dois itens relativos a condições de trabalho
listados no questionário foram avaliados como bons pela maioria dos
policiais: relacionamento com os policiais dos batalhões (64%) e escala
de trabalho (52%).
A pesquisa descobriu que caiu de 69% para 59% o
percentual de PMs que não gostariam de trabalhar em UPP. Ou seja: a
maioria ainda está ali contrariada. Do total de ouvidos, 33,2% estão
parcial ou totalmente identificados com o projeto de
pacificação,enquanto que 51,3% são neutros e 15,5% são parcial ou
totalmente resistentes.
O perfil dos policiais lotados em UPPs é basicamente o seguinte:
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Mulheres são 11%, mais do que o índice verificado na tropa da PM, que é de 7%.
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Faixa etária: de 25 a 33 anos
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Escolaridade: 52% têm ensino médio completo e 28,9% superior incompleto
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Renda pessoal: 63% têm de 3 a 5 salários mínimos
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Renda familiar: 52%, de 5 a 10 salários mínimos
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Tempo na PM: 47,2% têm de dois a cinco anos
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Tempo de formação: 83%, de 7 a 9 meses
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Casados: 52%
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Têm pelo menos um filho: 48.3%